10.16.2011

Paz no deserto








Havia um ponto de luz brilhando em meio à paisagem preto e branco. Desertei-me. Desertaram-se. Meus lábios se entreabrem como se quisessem chamar pela outra metade. Abri o baú da fantasia. Sustentei-o por um instante. Pouco a pouco, sem que eu percebesse, os olhos das fotografias abriram-se placidamente. Teríamos nós, pobres tolos, sobrado no palco de uma estação inglória? - perguntei-me.  Mas viver era isso mesmo. Era também enxergar a impossibilidade do amor, apesar de eterno. Vou atirar palavras aos céus. E voarão, serenas como pássaras, batendo asas sobre a indiferença.  Às vezes me pergunto se o silêncio não seria uma espécie de luto pelos encantos que se quebraram. Pelos sorrisos que, de repente, pararam. Mas a vida era geografia humana. Presença. Paisagem. E lembrança. E os desertos existem a partir do esquecimento. Quem vive neles precisa da solidão para lembrar-se da importância do silêncio. Seu suspiro, o elo perdido entre o íntimo e o abismo. Emocionalmente morto, mas espiritualmente vivo. Era preciso recolher paisagens com os olhos e deixar que dentro deles brotassem lagos, flores, montes. Recuperar o viço, a magia o sonho e ter o coração tomado de encantos. Que nossas mãos tenham forças para derrubar muros altos e construir infinitas pontes dentro de um abraço avarandado.  Atravessei desertos de papéis e o extremo de mim parece agora estar ao meu alcance. Lá permaneci por um longo inverno, mas há sempre um sol a esclipsar a manhã do sentimento. No passeio, debaixo daquele céu cinzento, o Sol disfarçava a sua surpresa ao descobrir na paisagem fria, isso que chamam de vida. Nós que já adormecemos em braços de arames farpados, hoje, parecíamos ter acordado em lençóis de rosas estonteantemente perfumados. Agora, corpos e almas estavam inteiramente cobertos de rosas. O vento sopra em todas as direções. Silenciosamente, levantam-se as pétalas. O amor era o único orvalho capaz de sair de si para palmilhar o pó da gratidão, nestes dias sem Sol. Eles sabiam que tudo poderia acontecer debaixo daquela palmeira que enxergavam à distância. Aquele mesmo céu que derramou cem tonalidades de cinza sobre a tarde, não tinha notado que no fundo da lata havia um resquício de lilás, azul e verde a matizar as cores. Sentada num canto, a menina, sozinha, limpava as cerdas do pincel e trabalhava silenciosamente na mistura das tintas sem saber ainda que cores obteria. A tarde pacientemente se despede. E é furta-cor que ela dobra a esquina. Não deixei que o silêncio vencesse e por isso pedi tua voz em meu socorro. Chegaste antes que eu sucumbisse de sede sob o zênite. Trouxeste o cântaro, o âmbar, o mel e a fonte e assim me salvei antes que as legiões tomassem conta das dunas. Era teu canto delicioso a costurar o coração que tínhamos ferido no dia anterior. Hoje, em plena primavera, nosso amor é uma tenda sobre a ardência serena do verão. Nenhum amor faria sentido senão existisse dentro do coração, por mais frio que seja. Visto de longe, o deserto é um mistério que faz segredo para os forasteiros. Visto de perto, o deserto é uma sucessão de estampas que assumem formas de abstratos desencantos. Quando vamos aprender que o passo é caminho? E esse eterno retorno que nos descontenta é o mesmo que aproxima-nos do que ainda há pouco era desconhecido. Não queira passar a conversa na primavera. É mulher. O coração partido desconfia. Tente lírio, em silêncio oferecido.




Lídia Martins

5 comentários:

JasonJr. disse...

... :D ...

Leo disse...

Porém, Bloom não perdeu o espirito. Ele
sabe que os grandes gestos surgem
depois de um prolongado esforço de imobilidade e nada.
A mão direita fará o seu melhor movimento
depois de quarenta dias no deserto;
assim como a mão esquerda.

Erica Gaião disse...

Perfeito!

Beijos

Rafaelle Melo. disse...

Respirei fundo. Não tem como sair intacto depois de ler esse texto.
E comigo não foi diferente!

O fato é que olhei para o fundo das latas que guardo aqui no quartinho do meu coração, tirei a poeira e olhei os resquícios de cores. De cara não pacifiquei nada. Nada mesmo, Pipa.

Olho o lírio e inquieto-me com o tremer das minhas mãos em querer pegá-lo. É que sou mulher. "O coração partido desconfia."



"Que nosso refúgio não seja levantar muros altos e sim infinitas pontes dentro de um abraço avarandado."

E vou pacificando aos poucos...

Te beijo, flor!

Etiene disse...

Vou atirar palavras aos céus. E voarão, serenas como pássaros ...

Adorei esse texto e realmente quando vamos aprender que o passo é o caminho?

Beijuss doce.