Ontem, a vó preparava o doce no tacho. Enquanto a mãe coava o café e ouvia o rádio. Não era um rádio. Era uma caixa de abelhas que ela achava que era rádio. As notícias de guerra eram lá do outro canto do mundo. O pai no mato. O Branco tentando cavalgar no queimado. (que era o burro que a gente tinha). E eu brincava na poça d'agua, depois da chuva de arco-íris. No quintal, o pé carregado de jabuticabas. Tinha também frutas do condi. Mangas muitas. E marimbondos também. E uma ninhada de gatos que o vô pegou pra criar. E bem do lado. O poço dos desejos sagrados. O poço meu Deus. O poço ainda estava no mesmo lugar. Acho que ele ficou lá pra me contar um dia que sonhos se realizam. Como ele mesmo me disse um dia naquela tarde, quando eu ajoelhei por sobre ele e pedi que nunca nos faltasse o pão. Quando a moedinha caiu no fundo, uma voz ecoou dizendo: Que nunca. Que nunca faltaria. E não faltou. O desejo sagrado se realizou. Quando eu acordei gente, já estava crescida. Só restou o gosto de infância na boca.
Pipa. A que virou gente grande.
Nenhum comentário:
Postar um comentário