12.8.18

ELYSIAN FIELDS


Será preciso dormir muito até que a passarada desperte as suas asas. O único ponto de contato entre as nossas vidas é o eixo no qual toda solução gira — a Avenue Des Champs-Élyséss. Dez de abril é o centésimo dia do ano no calendário gregoriano. Cento e um na contabilidade bissexta. Faltam duzentos e sessenta e cinco dias para acabar o ano. Em agosto de 1938, um corvo pirata negociava um violão com uma garça-real na encruzilhada das rodovias 61 & 49 em Clarksdale, no Mississippi, na esperança de tornar-se um cantor de blues, tomar o expresso rural e arrasar em uma esquina qualquer parisiense. Leio os jornais de ontem e descubro que as notícias são as mesmas de hoje. Olho para estes dois putti apoiados nesta cruz pátea vermelha em tamanho contraste com este campo branco e penso na tela de Burgkmair: Qvos Devs Conivnxit Homo Non Separat. Você morreu em um domingo. Em uma noite tão extraordinariamente ensolarada que os pássaros fizeram questão de empoleirarem-se nas pontas afiadas dos galhos dos algodoeiros. Não sei onde li que quando morre um Beija-flor, o outro não resiste à viuvez e morre junto. Eis-me aqui, caquético senil e descalço, caminhando pelos teus campos elísios em plena inflorescência do capim-gordura, debaixo da chuva suave que torna a cair sobre as montanhas do velho Alabama para acordar os vapores das frutas e das flores. Trouxe galhos para a lareira, uma gaita e esta garrafa de rum. Consola-me saber que a página solta da partitura ainda esteja pregada no alto da nossa parede cinza e marrom, ainda que a gaita de foles da eternidade se recuse a tocar para nós. Entendo sua resistência em imitar o mundo à nossa volta, repleto de prelados, cavaleiros e principados a implorarem que a bruxa sem vassoura faça alguma coisa para salvar o império do príncipe negro. Todo mundo lá fora vivendo e o Soul da estreita observância aqui, lendo.  Temporada no Inferno ou Um Poeta em Nova Iorque? Nem um nem outro. Rimbaud e Lorca exigem muita capacidade de processamento e meu cérebro hoje está lento como um navio no estaleiro e com um exército de pensamentos formados em ordem de batalha procurando por um rumo. Maré baixa em Greenwood, o lugar onde se vai quando se está à procura de descanso. Hoje estou acima das nuvens, de olhos muito abertos, tal qual um amentilho protegido por um cacho amarelo atravessando a estrada do cascalho para chegar ao riacho e talvez, com sorte, encontrar um portão gótico, uma cascata, um celeiro e fundar um eremitério de absoluto e completo esquecimento. Desta vez, estou lendo sobre a extinção gradual do papel-máquina, ou se preferir, a sua perpetuação, com ênfase no quão longe o Jesus bíblico está do histórico e no quanto ele enganou-nos a todos, os pretos e os brancos que ainda não sabem que são pretos. Estamos tão perfeitamente sós que não temos sequer uma bússola de rolamento para orientar as futuras expedições dos nossos tubarões iridescentes do Índigo. Quando penso na palavra civilização, recorro às línguas mortas na esperança de resgatar significantes e significados como simplicidade, cortesia e afabilidade. Nestas prosódicas amostras de moderação da linguagem sempre tento contextualizá-la com a ideia de fraternidade. E, então, assalta-me uma sensação de procissão afundada, como uma tela pintada por Ilya Repin, com fiéis na província de Kursk carregando altas imagens de Virgens. Uma espécie de remissão ao Santo Sangue, encarregados, porém, de não indicar nomes. O que passa na cabeça de uma mulher quando mente para um homem? O mesmo que passou na cabeça de Wright, séculos antes, quando pensou em uma nova hipótese do Universo? Se bem que sua ideia de que as estrelas não são infinitamente dispersas e distribuídas de maneira promíscua pelo globo, sem qualquer ordem ou projeto, não estava de todo errada. Ou estava? Wright era outro especulador de nebulosas fracas, essa coisa qualquer quieta na paisagem animada. Ou será Bowen quando desenhou o sistema solar com órbitas de cinco cometas notáveis? É outro Benda, esses escultores de luas de pedra imaginando que ainda haja algum futuro para a Terra. Nada disso é da minha conta. Da minha conta seja, talvez, esta pipoca com este guaraná Pepsi-Cola. O rótulo está dizendo que contém extrato natural, mas o gosto de ferrugem me diz que é um aromatizante sintético idêntico a ele. Já não sei mais no que acreditar, se na forma ou no conteúdo das coisas. Há quem confunda dificuldade com malandragem. Veja bem, se até os imperadores com reputação à prova de bomba atômica cometem equívocos de interpretação, imagine o que sobra para as futuras mafiosas entregues sem nenhuma misericórdia aos gângsters do sul do mundo. Feita a curva sem volta, e lá está ela, a estrada que nos saúda com todas as suas rodas raiadas, deixando para trás a cortina fumarenta da carcaça para o delírio da indústria da borracha. O caso da carne passou além dos açougueiros e a aranha torna a tecer o seu véu sobre o dorso da serpente galvanizada. Um andarilho, já com cabelos brancos, ajeita uma viola quebrada nas costas, entra em uma mercearia de paredes descascadas para comprar uma caixa de fósforos, faz o que tem que fazer, abre a porta, caminha até o outro ponto da rua, vira para direita, dobra à esquerda e para. A silhueta risca um palito na altura do rosto, depois outro e mais outro. A fumaça levanta-se das chamas alaranjadas, faz cócegas na ponta do seu nariz, desliza pelos fios de seus cabelos espetados, forma uma nuvem de interrogação e ali fica. No que pensa um homem enquanto fuma um cigarro? Talvez no que fazia Hitler na tarde do dia 27 de fevereiro de 1933, quando ordenou que seus homens incendiassem Reichstag, o prédio do parlamento alemão e, em seguida, colocassem a culpa nos comunistas. Os transgressores, no caso, eram uma colher de prata com cabo de madeira e um pedreiro de boné xadrez que tinham acabado de chegar em Berlim para procurar emprego. Era período de campanha eleitoral e a única saída encontrada pelo rei do bigode de leite para ocultar seu plano macabro de extermínio de vertigens  e abismos foi tirar uma fotografia com aqueles meninos que sonhavam em ser... Paçoquinhas de amendoins dos Códices Noir de Nantes? A sombra dá um passo à frente, cruza a ponte Tallahatchie e segue a pé em direção a Road Money. As grandes cidades do sul o esperam de seus portos repletos de prédios, armazéns, vielas, frio e mau cheiro. Guindastes, tratores e empilhadeiras ameaçadoras carregam mercadorias com ajuda de estivadores, arrumadores e conferentes de carga que não sorriem nunca entre os emaranhados de rolos de cordas. Balsas fantasmas circulam entre Staten Island, Nova Jersey e Keyport. Aqui, o novo Brunswinck, ou se preferir, a extraviada Braunschweig é a rota. Pela sua cabeça passam nomes como Memphis, Robinsonville, Penton, Nova Orleans, Chicago, Dallas, San Antônio, mas é em Hazlehurst, na cidade onde os bons tempos rolaram, que ele mais pensa. Gunther Hotel, quarto 414. Speir and Law. Uma vez mais estou nas mãos dos zumbis de ternos brancos nascidos nos bairros negros, e para completar, devendo. Dez dólares por canção e nenhum direito autoral. Meu violão não irá a lugar algum sem mim. A Lei da Vadiagem inclui, entre outras coisas, o reajuste social dos desempregados crônicos, prostitutas, mendigos, vagabundos, sem-tetos, leprosos, lavradores, deformados, loucos, ciganos, índios, negros, gays, lésbicas, pintores, poetas, músicos, professores do ensino fundamental e médio, historiadores sem passado ou futuro, filósofos de teatro, e sobretudo, dos alcoólatras do mundo aos seus postos de trabalho. É o que acontece quando uma garça-real criada em gaiola e aviário cruza a linha de cor à procura da flor asiática levada para trás dos urais,  não resiste à tentação de um xadrez acidental com um corvo afro-americano, e é obrigada sair à francesa da jogada. Curva acentuada à esquerda, era esta a advertência da placa virada. A fome de caminhos tem misturas poderosas. Des Champs-Élyséss é uma avenida comum a todos os mundos. Nela não há alegrias nem tristezas, nem verdades nem mentiras, nem desencontros mortais, nem saudades, nem despedidas e nem nada que a música ou a poesia possa fazer pela humanidade. Há, talvez, estes coros dilacerantes de harpas de anjos dando adeus à imortalidade, este passo lento, tímido, meio de lado, atravessando um desfiladeiro selvagem na esperança de chegar ao vale suave, estas miríades, estas náiades, estas sombras pindáricas, estes magos do caos, estes cavalos-marinhos de olhos confusos, estas apsarás que dormem e fazem dormir profundamente os seus bebês de colo, enquanto esperam pelo despertar de seus demi-deuses crioulos do Deltablues, esta recém-nascida força que brota da espuma das ondas, esta confluência de todas as águas, de todos os portos, de todos os vapores cercados por incontáveis veleiros, pequenos barcos e rebocadores, e só então, esta maleta com que finalmente desfaço o embrulho do teu abraço gelado. Na espelunca ao lado do cais fortemente murado, está tocando You Gotta Move  é Mississippi Fred McDowell  o bluesman de todos os ofícios e melhor que todos nós juntos. Tínhamos tanto a aprender com estes restolhos de avelãzeiros. As folhas da nogueira-pecã estão caindo. Repare bem na madeira assombrada, ela parece tão segura de si própria. Algo me diz que não tardaremos a ter um bosque completo. Tudo está parado, feito as estátuas de Saint-Cloud imersas na nostalgia do asfalto esfumaçado. Nada mais se move. Nem os nenúnfares nos arredores do lago do jardim de Bagatelle, nem o comerciante de galinhas e abajures na rua Lepic em Montmartre, nem as moscas da mercearia de legumes da Maîetre-Albert, nem a sombra do tocador de realejo na escadaria Des Blancs-Manteaux, nem o antigo sino de Bourdon na torre sul de Notre-Dame, nem o floco, nem a lâmina, nem o raspador côncavo e nem a flecha espigada que fazia girar as rodas d'água dos antigos moinhos da nossa Paris despedaçada. Ninguém se interessa pela vida das casas de campo e suas árvores perdidas, exceto os corvos da descontinuidade, em seus insigths Juk Jointe, para plantá-las em seus quadros de velhice e abandono, e claro, as serrarias Son House e William Brown, duramente empenhadas em derrubá-las para construir linhas férreas por cima. Talvez elas estejam por aí, que nem o Muddy, o Skip e o Patton, tentando encontrar  uma nova chance de vida em outro lugar, em busca do começo rude e difícil do verde perpétuo, longe do inverno, da neve, da quietude, do silêncio. Os ponteiros do meu relógio marcam meio-dia em ponto nas terras altas. Acordei mais transparente que geada na haste de uma bétula na Noruega. Estou rodeado por um imenso círculo de pedras eretas, e se eu continuar olhando muito para elas, vou pensar que estou na tumba de algum faraó egípcio que, confundido se está entrando ou saindo de sua câmara mortuária, ou o que é mais provável, de algum museu de arte de Nova Iorque,  veio tirar a dúvida comigo. Flocos de granizo caem da minha janela, e o ramalhete de perpétuas roxas que lembrei de trazer só para esquecer outra vez do lado de fora da porta da cozinha, enquanto carregava as mais de quarenta sacolas de compras da Sra. Jonhson, tem a aparência de uma peneira furada. A única coisa que me preocupa agora é como administrar esta procissão de vestidos decotados, para ser mais exato  — Pardon, Monsieur!  em como tirá-los. Meu filho de um ano tem olhos cor de avelã, brinca com os seus avós ao redor da lareira e sorri para mim enquanto bate palmas do vapor que se desprende das bordas das pétalas desmaiadas. Não que sejamos esnobes, mas há mais carrinhos com pneus desmontados naquela caixa de madeira que na garagem de Armstrong's. Acenderam-se-nos as lâmpadas do terceiro andar do edifício transformado em palco. Há tanto brilho na disposição incomum dos instrumentos. A bateria, o trompete, o teclado, o piano de cauda, a clarinete, o violoncelo, o contrabaixo e o violão estão apenas a uns três metros do Ground Zero, sem incêndio algum, e são incapazes de arrebatar o público no Red's Lounge do La-Rosecroix. Sapatos ruidosos, seguros e discretos tocam o assoalho num nevoeiro de enforcados. Todos olham para os seus figurinos impecáveis de Clube dos 27. Não houve aplausos para o manequim de terno risca de giz da vitrine ensaiando solos tímidos na guitarra azul e nem de Sonny Boy Williamson nos saxes — os únicos eleitos. Ah se eu tivesse uma gaita cromada e uma garrafa de Whisky adulterado, de uma companhia qualquer de bebidas das américas, faria um bend dos diabos! O papel engasgado no tambor da Underwood avisa que o expediente começou.

lídia martins

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