6.18.2016

O PONTO DE ENCONTRO


Arte: Rafal Olbinski

"Ama como a estrada começa."
Mário Cesariny


                  Aceite-o sussurrou o Demônio oferecendo-me um anel de rubi... Verdadeiro(?!). Percorri-o como se percorresse um caminho. É como uma progressão de harmonias de Calle 13, não há como ilustrar o som que nos devolve a mobilidade. Há, porém, que se desfazer da velocidade que impede a fixação da paisagem. Começar em tempos lentos, tons menores, feito os Djemb's que invadem o sótão da memória e, por puro capricho estético, antecipam a partida ou, se preferir, o regresso. É preciso coragem para arejar a paisagem. Abri um olho, depois o outro, segundos depois eu era os cem olhos de Argos cravados naquele tinhoso. Peguei o anel e suspirei. Quis pedir que esperasse um instante enquanto corria a joalheria mais próxima para verificar se a joia não era falsa, mas também não queria deixá-lo ali parado, sem lhe dar uma resposta. Quem sabe se aceitasse o convite para me juntar àquele anjo de sorriso reptiliano, poderia finalmente dar cabo ao meu plano secreto de me vingar de Deus e, com sorte, talvez conseguisse arrastar um maior número de adeptos da dúvida para o inferno. Em qualquer ocasião teria recusado sem grandes cuidados, mas dessa vez, senti que não era o caso. Perguntei-me o que as cartas do meu destino faziam nas mãos daquele simpatizante do satanismo e disse a mim mesma, se aquela  não era a voz do Diabo, até então o Diabo nunca havia falado. Fecho os meus olhos para abri-los nos dele. E ele é todo ele uma rota que decola, o ruído que sobe do asfalto esfumaçado, a geada que queima a grama crespa, o campo onde as estações explodem secretamente, a decrepitude do tempo a que todos estamos sujeitos, a palavra que evola no papel em branco, o movimento vertiginoso na ponta dos meus olhos. Pela horda perigosa dos meus pensamentos deambulam aves soturnas, górgonas bisonhas, criaturas macabras, monstros viscosos, carruagens sem amo e cavalos selvagens que parecem escorregar dos quadros em que foram talhados. O Demônio diz-me que quando chegar ao destino, a estrada terá ficado para trás. Sua felicidade será a minha lembrança do caminho. "Não fale com estranhos" — conselho que cresci escutando. E ignorando.

Lídia Martins

4 comentários:

placco araujo disse...

Já lhe disse que seus textos sempre me inspiram imagens como num filme, mas devo dizer que neste a única cor que se destaca, num fundo preto-e-branco, é o vermelho do rubi do anel que o demônio, lúcifer, tinhoso ou qual nome use, visto que ele também se traveste de várias formas (inclusive falantes)lhe oferece.
Quanto às cartas do destino, não creio que estavam nas mãos dele, mas tal qual num truque de mágica, você enxerga o que não existe. Aliás, me pergunto, se ele é real ou se fruto deste seu olhar culpado, talvez por insistir em falar com estranhos mesmo contrariando as recomendações do poeta e creio também de sua mãe.

Parabéns!

Carlos Roberto disse...

“não há como ilustrar o som que nos devolve a mobilidade” fiquei parado na verdade que essa frase encerra. Que bom seria que a inanidade que às vezes, e aos poucos, nos consome e tolda o olhar, permitisse contemplar cada um dos nossos medos da mesma forma com que a sua lucidez o faz. Enfim. Vejo um conjunto de emoções e sentimentos necessariamente esculpidos com o tempo, e bem. E eu a pensar que já não havia quem soubesse explicar uma vertigem. Belíssimo.

Monique Químbely disse...

Não sei se consegui capturar realmente a cena que escreveste, mas gosto das expressões que foram usadas, como aqui: "Pela horda perigosa dos meus pensamentos deambulam aves soturnas, górgonas bisonhas, criaturas macabras, monstros viscosos, carruagens sem amo e cavalos selvagens que parecem escorregar dos quadros em que foram talhados."
Abraço.
semfloreio.blogspot.com

Miksileide P disse...

Um viva para a literatura!!!!!