1.26.2016

PONTEIROS PARADOS

Arte: Gabriel Pacheco

"Había sólo lobos, para alimentar a los lobos, en las cuidades vacías."
 Perdido y Resistir XXII - Gabriel Pacheco
Há em meu bolso um relógio de cordas para o qual sempre olho. Os ponteiros giram fora de controle ao redor de um tempo que só eles conhecem. O tempo das coisas que ainda não vivemos. Mas eu não me importo mais, me importo? A recompensa de não amar ninguém é não ser amado também.
Abri a porta. Que porta? Esta que estou imaginando agora. Ver que não há ninguém por perto me traz alívio. Estou em minha antiga cidade. Não compreendo porque voltei a ela depois de ter passado tanto tempo distante, mas isso não tem qualquer importância, ainda é a minha cidade e para o seu coração posso regressar sempre. Na minha mente, sigo um caminho pela praça do Coreto, a praça que séculos antes, fora um cemitério. Cruzo a praça principal sob a luz maciça do sol do meio-dia. Neste instante, estou parada em frente ao Palácio dos Leões e testemunho um acontecimento. Um gato apodera-se de uma presa. Um pombo. Atira-o contra o chão e agita-o com violência. Faço menção de arremessar o livro que seguro entre os dedos na tentativa de impedir a ação criminosa do felino mas, a poucos metros, uma voz adverte para que eu não continue. Um homem de cabelos ondulados, pele clara e olhos de fogo aproxima-se. Desvio os olhos para ele e o animal desliza sorrateiramente para o seu colo. É o seu dono. Detenho-me outra vez na pequena ave. Espero pacientemente que ela se levante e voe, mas isso não acontece. O pássaro debate-se como se pudesse e quisesse amealhar forças para recobrar o ânimo das asas, há pouco estraçalhadas. Volto os olhos uma vez mais para o homem procurando nele uma explicação para o que houve. Eu quero falar, mas falar dói. Eu quero calar, mas calar também dói. Adeus — eu disse.
É céu de quase fevereiro, o verão está perto do fim e o vento agita as folhas nos troncos dos salgueiros. Na verdade, não há vento e nem os salgueiros e nem o Palácio dos Leões e nem o gato e nem o pássaro e nem o homem e nem mesmo há a praça do Coreto.
O dia passa-me inteiro por dentro, feito as horas do meu relógio de cordas com a tampa do vidro trincada que, apesar da fratura exposta, segue cumprindo seu expediente de movimentos e pausas. Ponteiros açoitam o tempo com uma hora familiar, embora eu já não seja capaz de a identificar. Cansada de voltar para o nada.
Eis o preço de andar sobre os ossos dos próprios pés: os passos nem sempre têm forças para, sozinhos, responder ao chamado dos caminhos. Agora somos só eu e o meu passo mentiroso. Estou contente de dizer que não me envergonho.
Há quem diga que uma imagem valha mais que mil palavras. Tem gente que olha, olha, olha e não enxerga nada. Coloquei o meu par de óculos escuros e a cidade reconstruiu-se-me na superfície espelhada das lentes. O dia era de sol escaldante, e as paisagens tremulavam no horizonte como o silêncio das coisas que se perdem ao longe.


Lídia Martins

6 comentários:

Gabriel disse...

"A recompensa de não amar ninguém é não ser amado também." - frase de uma perfeição incrível.

O segundo parágrafo do seu texto me fez ter algumas visões, gostei da forma como você escreve. Minha primeira vez aqui e desejo voltar mais, abraço!

http://devaneios-irreais.blogspot.com.br/

sintético disse...

Banhaste-me com suas brumas, e depois de um sonho eterno que continua em mim rodando, acordo no limiar de uma cidade aguda, num viveiro de almas. (imagem linda e complementar). Beijos Poetisa. =}

Nei Duclós disse...

Palavras depositadas no desespero que não te pertence, pois é apenas o Tempo e seus algozes. Palmilhas a margem de uma praia de fogo. Navegas em direção ao poema. Ficamos nós a observar os pássaros, teus cabelos cobrindo o rosto, porque é verão em alguma fonte e lá a água perdura como um lamento.

Carlos Roberto disse...

A verdade? A verdade é que eu não sei ao certo o que dizer. E dou por mim a pensar que a melhor homenagem que posso fazer a esse seu texto, esteja bem para além de tudo aquilo que eu aqui escreva, por mais belo e arrojado que seja. Não que o silêncio me explique de alguma forma ou que a perceção que extraio das suas palavras me comovam de um jeito especial, não é isso. Não só. A verdade, é que tudo se resume a um conjunto diferenciado de emoções que se apoderam de nós, não apenas quando escutamos mas, também, quando nos entregamos a sentir o lado vivo da palavra: a sonoridade, a cadência, o doce enlevo, ou até o bater do coração de quem escreve, como se este falasse. E fala. E é esse diálogo de corações, entre quem fala e alguém que escuta que quero aqui destacar e, acima de tudo, agradecer. Beijos, Lídia

placco araujo disse...

Eu sei que já usei aqui esta metáfora que, ler seus textos, seria como entrar numa sala de cinema e mergulhar inteiramente num outro mundo. Mas hoje, estava tentando me lembrar do nome de um filme que passou na minha cidade quando eu ainda era garoto, que contava a história de uma mulher que era cega e por isso só visualizava
o mundo de uma forma "interiorizada". Num dado momento, ela recuperou a visão e o filme, que era em branco e preto, passou a ser a cores a partir daquele momento.
Lindo texto Pipa!
(E, este "filme" criado por você, passou tão rápido que nem me dei conta que era longa-metragem.)

céu e saudade disse...

Tão doce e triste que chega a doer. Nem sei se dói. Meio ferida, meio cicatriz: aí, onde eu estive, quando te li.