12.01.2015

PONTO, CICATRIZ.

Arte: Gabriel Pacheco In.: Carmen, Georges Bizet.

"Lembra-te dos banhos em que foste afogado."
Yorgos Seferis

A corda antes da forca é a mesma para todas as pessoas. Recordo-me de, quando menina, equilibrar sobre um traçado de estacas contornadas por um emaranhado de fios de arame. Um dos mourões partiu-se-me aos pés deitando fogo a uma espécie de círculo invisível. Não posso dizer o momento em que errei o compasso, mas posso precisar o instante exato em que aquelas farpas me abraçaram. Lembro de não ter gritado.
Não há assentos disponíveis nos vagões deste século. Viajaremos no compartimento de carga, percorrendo oestes remotos, como forasteiros de viver incerto que seguem atravessando e sendo atravessados por desertos incógnitos. E quando à noite, em algum botequim de um vilarejo que não exista no mapa, haveremos de tirar o chapéu da cabeça cansada e, depois de sorrir à saúde de um heroísmo estático, estendê-lo sobre o balcão para a alegria ou tristeza dos que atiram gorjetas, cara ou coroa da sua mais valiosa moeda: a indiferença. Seguiremos trôpegos pela estrada sem placas até que nossas sombras desapareçam anônimas na curva dos passageiros de coisa nenhuma.
Sei que um dia as veias principais rebentarão na ponta dessa faca com que corto essas pessoas-cebola, essa gente chorada em camadas. E de um ponto secreto que sangra, libertar-se-ão as estrelas, os cometas, as luas e os sóis de seu brilho mortal, essa imensa variedade de astros polimórficos toureando entre si por um estúpido fascínio pelos jorros. Não quero mais beber desse coquetel de desesperos.
Um morto sabe que está morto? Já fizemos essa viagem antes e parte de nós não voltou.  Segure ambas as pontas, uma mais baixa que a outra. À volta do pescoço, cruze a parte comprida sobre a parte mais curta. Deslize a parte longa para cima, dobre horizontalmente a parte mais curta e passe a parte longa para a frente do nó em formação. Pontas dianteira direita e traseira esquerda se eu quiser soltar, e pontas dianteira esquerda e traseira direita se eu mudar de ideia e decidir apertar. Em seguida, esconda a parte longa por baixo da parte dobrada e finalmente ajuste a borboleta puxando pelas duas asas.
Às vezes as imagens fixadas das fotografias que queimei me comovem. Eu demoro para cicatrizar. Os cortes que me fizeram ontem fecharam-se na manhã de hoje.

Lídia Martins

4 comentários:

Carlos Roberto disse...

Num mundo onde efetivamente, o tempo não espera por ninguém. Onde o dia seguinte se revela, cada vez mais, improbo e hostilizante, ainda há pessoas bonitas e sensíveis o suficiente para nos mostrar o quanto tem de belo, o doce dourar da corda à volta do pescoço. Adorei o texto, muitíssimo bem conseguido, Lídia, embora ache que só mesmo com ajuda conseguiria fazer o tal do nó.

Wendel Valadares disse...

Uaaaaaa!!!! Que coisa mais incrível!!!!!

Tua palavra é inebriante, Pipa. Teu blog-céu-abrigo é convite para mergulhar no infinito.

Bendita seja a tua palavra.

Te abraço.

W.

fjunior disse...

Tem uma música do Jards Macalé que diz algo como "Mesmo assim fiquei pensando. Que a gente podia viajar. E fazer um álbum de fotografias pra depois queimar". Às vezes, o amor pode ser isso, um álbum de fotografias para depois queimar, ou atualmente um álbum de fotografias para deletar e no lugar colocar novas memórias, novas lembranças, outros amores, outros ares, outras viagens, novos desafios, vontades, desejos. =D

placco araujo disse...

Lindo texto, apesar do gosto amargo que nos deixa na boca. Mas, dado um momento de respiração contida, voltamos a caminhar.