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8.30.2014

PARA LÍDIA,

La Bête Humanie, que transformou todos os meus suspiros em gemidos, mas nem por isso deixei de perscrutar o esconderijo nínfico  que se oculta no leve adejar de teus longos e curvados cílios.
 
Gosto quando me chama pelo sobrenome. Dá-me a sensação de que ainda sou alguém importante. Preferia lutar com urso-negro-tibetano a ter que olhar novamente em teus olhos. Sempre me pergunto a razão pela qual você nunca olha para mim quando estou falando. Estou soterrado nos escombros deste papel em branco, implodido, desfeito e anônimo, à espera do momento em que tuas palavras me reconstruirão de novo. Sei que isto vai parecer absurdo, mas, entre manter ou quebrar o silêncio, a única arma de poder que me foi dada para lutar contra estes sentimentos, mudo de ideia a cada cinco segundos. O que seria dos anjos se não existissem demônios... Um Diabo criando. Inacabado. Sitiado de dois mundos. Estou confuso como um Deus vestido nas sete peles de um ser humano. Não tente imaginar quantas doses de Brandy ingeri para lhe dizer que, que, que. Eu estou bêbado e com saudades de você.
Se deseja mesmo ter uma visão do que me tornei, pense em um homem de cabelos grisalhos, gestos pausados, longínquo e mal-intencionado, segurando na mão direita um copo de conhaque e afogando com esmero todos os erros do presente, futuro e passado. Cortesia do Velho Oriente. Por favor, Mademoiselle, contenha-se. Isto não é um convite a fantasias dilacerantes.  Não serei o Adão de teu diminuto Éden. De minha parte tenho a dizer que não me arrependo da decisão de ter me afastado de você. Como as cartas haviam previsto, tornei-me o sultão de meu sonhado harém egípcio, um devasso rodeado por damas de desejos inconfessáveis e ninfetas de radiosa beleza que não tem por mim nenhum interesse romântico, exceto as partes isoladas desta efêmera e viril matéria. Do alto de meus quase cinquenta anos, preparo-me para deixar este elegante posto de valet, e dedicar-me talvez, quem sabe, à ciência ou às artes. Enquanto isso permito que estas adoráveis criaturas façam uso deste corpo e, nas noites de meus verões loucos, deixo que convertam toda a minha agonia em prazer ou, por assim dizer, sou tão santo como só um pecador poderia ser. Não posso evitar sorrir... Acha que fui fiel à ideia que você sempre fez de mim?
Frequentemente me acontece entrar neste quarto e juntar todos os pensamentos que nele deixo espalhados. É quando a encontro. Outro dia lia um de teus contos, uma história estranha de uma protagonista que acreditava perdida toda a parte de sua vida que não passou sentada em sua escrivaninha. Encontrei a explicação do desprezo visceral que sempre senti pelos teus versos. Poemas sem consciência nem medida que a trancafiaram dentro de um quarto escuro, me privando de teus cabelos sempre revoltos, teus olhos sempre irritados, teus lábios sempre molhados, reduzindo minha existência a ingrata tarefa de demiurgo, nesta geografia de desertos hostis e selvas perigosas, onde nem as mais venenosas serpentes rastejam com segurança. Li tua carta. Ler-te não é o mesmo que beijar-te, tocar tua pele e sentir minha boca seca depois do gozo. Eu pensei antes e sempre, que assim seria. Depois de agora, o gozo em tuas palavras, penso e sinto eu, é muito maior do que estar simplesmente entre tuas coxas.
Faço-me então aqui presente, muito embora tenha sido uma satisfação perversa brindá-la com esta eterna espera, mantendo-me rigorosamente ausente. Ainda penso que deveríamos ser o não-lugar um do outro. Altar particular de todos os assassinos convictos. Agradar-me-ia que o meu não-lugar começasse no teu ombro. Daqui a pouco, o segundo sol estará se pondo. Acaso sabe me dizer para que lado fica a eternidade? Dizem que lá tem o melhor brownie de chocolate com pistache,  o mais sofisticado crème brûlée e, não menos importante, os mais  provocantes sabores de sorvetes marinados com calda de caramelo quente. Lídia, minha bendita heroína das marés de tinta, reflexão de  água, terra, ar e fogo. Tenho todos os meus sentidos embaralhados, de tanto procurar em outros rostos vestígios de teus olhos. Gostaria de propor um novo encontro. Você decide onde, contando que eu decida quando.
 
Teu e único,
Bruno.
 
Lídia Martins

3 comentários:

Alvaro Vianna disse...

Parece que essa autora perdeu o juízo de vez.
Lídia, chegou a um ponto em que só você pode responder a si própria!

Beijo

Carlos Roberto disse...

Não será tanto um caso de apagar, emendar e voltar a escrever. Chegou-se a uma estágio mais audacioso e transcendente da escrita. Trata-se de construção pura e bela, que vem de antes, de fora para dentro (mesmo assim), e com nota artística ao nível da excelência. As palavras têm um poder incomensurável, e na maioria das vezes apenas carecem de um olhar profundo e atento para serem plenas de significado. Fiquemos, pois, a aguardar onde e quando se dará o encontro. Beijos, Lídia

placco araujo disse...

Gostei muito da forma que encontrou para ouvir uma "resposta", mesmo que vindo de dentro.

(Adorei o artifício literário!)