3.07.2014

ÉRASE UNA VEZ...






Sonhei que era personagem de um conto de fadas. RAPUNZEL. Daí eu tava lá na minha torre comprida, sossegada, sem porta, sem escada, sem entrada, sem saída, sem nada. E daí que de repente passou um cara. E aí que da minha janela eu acenava, chamava, gritava e até xingava mas o príncipe era surdo, mudo ou as duas coisas juntas, num entendia nada. E aí que no meu sonho não havia pássaros pra levar meu recado ao príncipe desorientado, porque pra satisfazer meu fértil impulso assassino por histórias que tenham início, meio e fim num cemitério eu tinha matado todos eles e enterrado há dois contos antes. E aí que eu peguei meu celular pra baixar o Whatsapp que eu ainda não tinha por preguiça metafísica destas tecnologias que consagram distâncias, mas acabei desistindo porque continuo achando esse meio de comunicação muito esquisito. E aí que eu liguei pra minha guia espiritual à distância perguntando se ela podia me ensinar mais uma vez a usar o Skype que um dia deixei de lado porque não aguentava mais ser vítima de tarados da WEBCAM, sobretudo de ex-namorados, isto pra ver se facilitava a interação, porque lá ela disse que a gente ainda podia ver a cara um do outro em tempo real, mas o príncipe nunca que ficava on. E aí que a única coisa que eu tinha aprendido mais ou menos era usar o Facebook, inclusive aquela função que a gente aperta pra terminar relacionamentos sérios, deixar de seguir, bloquear esta pessoa, cancelar atualizações de páginas indesejadas, repelir cutucadas, impedir solicitações de jogos e marcações de fotos com amigos sobretudo aquelas que a gente tá parecendo um ET e fazem questão de publicar na sua linha do tempo que é só pra te humilhar mesmo. E aí que finalmente mandei uma mensagem no inbox da rede social do príncipe, só que até agora ela não foi visualizada.  A verdade é que a mensagem foi visualizada e só não foi respondida porque o príncipe é muito ocupado, além do que, ele já tinha me avisado que trabalhava numas parada literária e não tinha tempo pra quase nada. E aí que a minha primeira impressão foi a de que, sendo ele um príncipe, podia ao menos ser educado e responder o meu recado. E aí que eu liguei o detector de balelas e desliguei pra não concluir o contrário. E aí que eu passei o fim de semana inteiro na minha torre, desolada, ouvindo Abba e perguntando ao Fernando se ele também conseguia ouvir os tambores mas, ele só balançou a cabeça e  achou melhor não falar nada. E aí que eu apelei pra Pimpinela, Maysa, Maria Bethânia, Elis Regina, mas nenhuma delas veio em minha defesa, porque os astros estão sempre ocupados demais com a sua cólera pra salvar o que ainda restava. E aí que eu achei mais fácil usar as técnicas recomendadas pelos contos de fadas e atirar as minhas longas tranças afro pela janela pra facilitar a subida do cara, mas o príncipe achou que era uma barreira de proteção de aço inoxidável ferrítico ACEP439A, saca? E aí que o príncipe pegou o seu cavalo, meteu a espora e cascou fora. O fim, ah sim, sempre o fim, e aí que a bruxa encarquilhada caiu na risada porque a princesa terminou beata, entediada, irônica e foi carregada por uma falange de baratas, possivelmente saídas de um livro de Veríssimo que simularam caras e bocas de pânico pra fazer a princesa se sentir uma fundamentalista islâmica. E aí que conseguiram. E aí que, a princesa, acreditando que era a terrorista da vez, amarrou umas sete ou seis dinamites nas tranças, pagou de mulher bomba e Kabum!!! E aí que agora tem sentimento espalhado pra tudo quanto é lado e o jeito foi recolher os retalhos. E aí que o caso foi arquivado numa pasta suspensa sob a sigla secreta C. Coincidência.  E aí que eu não pude ser feliz para sempre, mas posso dizer que fui feliz por alguns instantes. E aí que o importante é que o meu príncipe veio. Ou eu quem fui? A ordem é o de menos. Se ele veio pra ficar? E aí é que já são outros quinhentos... Perdi sempre tudo. Menos a capacidade de me encantar. O que já é muito. 

 Gente,

P.S.: É preciso muita valentia e, arrisco dizer, até mesmo uma dose extravagante de excentricidade para acomodar a fantasia dentro da realidade. E é por isso que me esvazio, me esvazio e me esvazio. Só para desfrutar do prazer de ter o coração novamente preenchido. Este é o meu Cuento de Hadas: ÉRASE UNA VEZ... O título é em espanhol porque, bem, este clichê não é da conta de vocês, já aprendemos que um segredo tem o peso das pessoas que debaixo dele escondemos. Se a Wikipédia não me falha à memória, Rapunzel é princesa de um conto alemão. Não me estranha que este conto tenha nascido originalmente do ventre da Alemanha. Dizem que lá, as portas exigem uma força descomunal para serem abertas. E, quando chegam a ser destrancadas, são imediatamente fechadas. Sejam quais forem as razões haveremos de respeitá-las. Vá saber a infinitude de medos e dos inconfessáveis desejos que se escondem atrás delas, embora ainda compartilhe da teoria de que as piores prisões são as voluntárias. Eu sempre quis inventar a minha própria lenda mas, na falta de criatividade, usei a alheia, mas com uma pitada espanhola. Tenho motivações poderosas. Em que pesem as incontáveis mortes das esperanças que carrego nas costas, meu coração ainda bate feito um par de castanholas. Quem nunca viveu uma que atire a primeira trança, sob pena de tê-la cortada pela bruxa malvada. Enfrentar as bruxas metafóricas que nos assombram pelos corredores das noites insones não é uma tarefa modesta, por mais que pareça. De resto, orgulho-me de não ter sido atingida pelo feitiço da cegueira, embora não tenha escapado à maldição do deserto que, desde sempre, me atravessa com a sua afiada lança de esperas. Eu te desabotoo coração. Para que você fique todo exposto. As lágrimas aqui caem dobradas, só que hoje, em cascatas de risadas, porque onde quer que exista ternura, ela brilhará de alguma forma.  

 Tá vendo, foi só falar em rir e todo mundo ficou sério. Proponho um brinde à saúde destas Divas magníficas!  Desejo a todas nós um Feliz Dia Internacional da Mulher! É amanhã, 08 de Março, mas comemoremos, desde sempre! Deixemos que aqueles, os homens, sigam fazendo seu terrorismo afetivo acreditando que o mundo continua girando em torno do cromossomo y. É na desorganização que arrumamos o nosso caos, portanto, quebrem copos e pratos sempre que achar necessário e sejam fiéis a tudo o que sentirem, inclusive a raiva, sobretudo quando ela for legitimada. Celebremos esta data rezando pelo menos um CREDO que é pra nos protegermos dos maus presságios, depois dancemos acompanhadas, sozinhas, na rua, na chuva, delirantes, loucas, bailarinas, graciosíssimas ao som Abba, Pimpinela, Maysa, Maria Bethânia, Elis Regina e todas estas coisas substancialmente vivas que matam, morrem e renascem das cinzas todo-santo-dia na forma de arte para que a humanidade recupere na poesia a fé que perdeu na vida. E sigamos, acima de tudo, acreditando. É preciso ter fé. Vai que. Não é quando estendem os braços, mas quando estendem os olhos, que nos alcançam.


FELIZ DIA INTERNACIONAL DAS MULHERES!

Um beijo da Pipa. 

Lídia Martins


4 comentários:

Bell disse...

Toda mulher um dia sonhou em ser princesa, encontrar seu príncipe e ter um final feliz.
Feliz dia das Mulheres

bjokas =)

placco araujo disse...

Um esplendoroso derramamento. Que bom ter menina Pipa tateando com tanta ternura as amarguras desta vida. Orgulhoso de ti, Lídia. Hoje e para sempre. Beijos e_ternos.

Carlos Roberto disse...

rsrs... a versatilidade de um poeta não está só naquilo que escreve, nos delírios que trilha e inventa, mas também, na capacidade de assumir aquilo que, verdadeiramente, nunca deixará de ser. Uma criança. Sê-lo, sem vergonhas, medos ou complexos, não é para todos. Que melhor poeta podemos ter, se não aquela criança que nos habita?! Só vc, Lídia, para me fazer rir hoje.
Dia maravilhoso para vcs!...

Nei Duclós disse...

Mais do que um exercício de imaginação, este conto confessional, delirante, sofrido e hilário, e que homenageia a tradição literária infantil e amorosa colocando tudo de pernas para o ar, é um raro exemplar de domínio da linguagem. Criação pura que dá o recado de mulher madura, aberta, crítica e banhada de luz e sentimento. Leitura que nos carrega para a melhor arte da palavra. Abraço do talento em seu ápice de brilho e doçura.