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3.18.2014

"Baby bye, bye, bye!"


       
       Há mentiras que contei a mim que nem eu mesma atreveria a desmentir. Estou fazendo terapia cognitiva. Chamam-na “teoria das teorias” que as pessoas possuem sobre a sua realidade no que respeita aos seus e aos alheios universos particulares. Minha família acha que caí na fossa oca da fantasia e perdi completamente o meu senso de realidade. O que não deixa de ser uma verdade. Eu tenho me adaptado muito mal ao mundo real, sabe? Meu caso foi diagnosticado como (TOCME-TRANSTORNO-OBSESSIVO-COMPULSIVO-PELO MUNDO ESCRITO). Eu não tenho qualquer problema com pessoas de carne e osso, exceto quando me tocam. Elas têm um fetiche voyerístico de capturar os meus movimentos mais íntimos, aniquilando em pleno voo os pássaros que em mim cantam. E é só por isso que prefiro as que imagino. Eu aconselhei meus pais a procurarem uma clínica psiquiátrica, mas em minha cidade, a Pipa teria que esperar muito tempo na fila até que conseguissem uma vaga. No último hospício em que me internaram, me deram alta quando eu ainda achava que era um porco-espinho. Fato é que, ontem, em minha terceira sessão de regressão, voltei à fase pré-adolescente de corpo hermético e coração patético e neste preciso momento estou mascando chiclete e fazendo bolas imensas com ele, usando uma calça jeans de cós alto toda rasgada, uma camiseta do Hanson, um all'Star azul de cano longo, uma faixa de bolinha e, claro, estou com o micro system que ganhei do Eduardo ligado no volume máximo coreografando Bye Bye Bye do N Sync. Ensaiando um jeito de mandar um moleque seguir o meu exemplo e partir em busca de seu aprimoramento interno, já que fracassei miseravelmente em minha missão de achar que seria possível... Como é que eu vou dizer isto? Encontrar um homem dentro de um menino. Melhor que Boyfriend do Justin Bieber, sobretudo na parte em que o bonequinho de luxo afirma: "Posso te levar a lugares em que você nunca esteve antes. Amor, arrisque-se ou você nunca saberá. Tenho dinheiro nas minhas mãos e quero gastar." Será que quando se alcança a projeção as pessoas se dessensibilizam a ponto de deixar de dar valor para dar preço no outro gente? Meu analista não encontrou solução para esta problemática levantada na sessão de ontem. Milícias particulares, carrões de luxo, rotina de Shopping's Centers. Há os que se sentem seduzidos por isso. Este não é o meu caso. Ou eu já teria me vendido. Eu nunca fui galanteada por um homem de fato. As tentativas de aproximação afetiva foram sempre de cargos. Muito prazer, eu sou magistrado. Muito prazer, eu sou editor. Muito prazer, eu sou delegado. Que tal dizer alguma coisa de interessante antes? Por exemplo: seu nome. Celebridades... Vocês vão acabar apodrecendo nossa juventude. Meu nome é Pipa, moro na periferia, me sinto atraída por toda espécie de complexidades, especialmente por seres ambíguos, estranhos, confusos, rebeldes e esquisitos, fiz dezessete hoje, sou do signo de peixes, antenada em astrologia, não drogada e não prostituída. Minha brincadeira favorita continua sendo o jogo da amarelinha. "Baby bye, bye, bye!" Ah se eu soubesse antes o que ainda não sei hoje. Eu não mudaria muitas coisas. Definitivamente.


Lídia Martins

4 comentários:

Nei Duclós disse...

Gênio. Texto antológico. A exposição/distância zipadas no mesmo espaço. A regressão em busca do que vale a pena. A inocência perdida vista pela mulher adulta, lúcida e inteira. Psicanálise e literatura. A fantasia desdramatizada, a realidade desmascarada, a arte que presta socorro à saúde espiritual. Emocionante. Desse jeito é fácil, ao ler, se apaixonar. De verdade.

Sara disse...

Não me sinto capaz de comentar, apenas quero dar-te os parabéns!

Beta Repezza disse...

Eu ia escrever assim:puta que pariu! Essa foi minha reação exaltada. Mas não pega bem aqui na minha cidade... Vou fazer algo diferente: Puta que pariu!

placco araujo disse...

Gostei muito de como você traduziu este lado da Pipa, pintando-o com um humor quase ácido, mas ainda lúdico.

Beijos