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7.17.2013

Farol

Caía a noite sobre a cidade e com ela a esperança de que os desejos soprados aos dentes-de-leão se realizassem. Frequentemente me acontece entrar neste quarto e revirar todos os  pensamentos que nele deixo espalhados. Nestas horas lentas, em que não faço mais do que espanejar esta monotonia que teima em acostar como poeira fina sobre a mobília dos dias, me sento por um momento e aperto a mão contra o peito. O coração continua a bater. Tão acelerado quanto a agulha de uma máquina de costura. O céu está repleto de estrelas imaginadas. A noite, com a sua mão de luz, me toca.
Tal qual uma nau errante, os olhos excursionam pelo teto recolhendo medos, culpas, arrependimentos. Eis o grande fascínio em ser um contemplador de abismos: não ter qualquer receio de se perder em seus domínios. Neste momento em que nada mais peço ou espero, minha alma fica suspensa sobre o leito. Afofo o coração para que os sentimentos possam se aconchegar dentro do peito. Mergulhada neste oceano de silêncios, adormeço.
Acordo. Não para a realidade, mas para o sonho.
É manhã de sábado de algum secreto calendário e há pássaros gorjeando nos telhados da nossa casa de campo. Bem-te-vis ocultos cantam extasiados nos galhos e, muito embora não possamos vê-los, é certo que ensaiam para algum concerto. Em silêncio os escuto para ver o que aprendo. Há flores inéditas brotando nos vasos de barro que deixei sobre as janelas. Um morcego, perplexo por ter acordado na sala, arregala os olhos e despenca do caibro como uma telha que tivesse quebrado. A bruma, suavemente, tira seu lençol evanescente e deixa à mostra a cabeleira esverdeada da mangueira. Os fios encaracolados das folhas são sacudidos pela brisa fresca que chega. Um canário para em frente ao retrovisor de um velho carro e começa a debicá-lo, certo de que aquele não pode ser o seu reflexo e sim sua alma gêmea suplicando de joelhos para que ele a liberte de dentro do espelho. Para além das cercas, há um riacho, onde todas as árvores vêm mergulhar no fim da tarde. Não movem sequer um único galho, apenas tomam seu banho de sol demorado, majestosas como quem posasse para algum pintor que as tivesse imaginado. A parte que mais me comove, são estes girassóis amarelos que brotaram em meu canteiro. Girassóis de uma beleza tão profunda, que suas pernas finas e longas dançam à luz do sol como quem ouvisse música.
Andando pelos caminhos que às vezes descubro, caio do mais alto sonho e no trajeto há sorrisos que brilham, olhares que iluminam, manhãs que irrompem faiscantes no cimo do horizonte e, para além da curva celeste, a claridade incessante de um farol que apaga da Via-Láctea a ideia da noite. Tal qual um passo que acha seu rumo, um rio que acha seu curso, um barco que acha seu porto, fecho os olhos e neste esvoaçar de memórias que entrelaço, me encontro. Como quem perdesse a noção do tempo para ganhar a dimensão do espaço, ficamos acordados. Tão próximos quanto a realidade que nos desperta do sonho. Há sóis espalhados por todas as noites que passamos em claro. Em teu olhar, eu vejo um mundo que todos os outros podem apenas sonhar...  
Atados apenas pelos sentimentos. Não os que aprisionam, mas os que libertam. Longe das gaiolas já era possível sonhar o canto. Pergunte aos pássaros... Liberdade não é arriscar um voo.  É, antes, arriscar um pouso. E, de súbito, girou o mundo. Os calendários enlouqueceram. Estamos em julho, mas aqui dentro, já é setembro.  A realidade é apenas o que imaginamos. O que é mesmo, ainda desconhecemos.
Agora ela pássara pousada em um fio de brisa. Os braços, duas asas expandindo-se com loucura ao encontro da vida.
 
 
Lídia Martins

8 comentários:

placco araujo disse...

Não me canso de repetir doce pássara, que as imagens que você cria são quase cinematográficas.
Me senti de repente no quintal de uma casa, longe das cidades, onde os riachos ainda correm e os bem-te-vis cantam sinfonias matinais.Onde os girassóis dançam e uma pássara se equilibra suavemente em um fio de brisa...
Que bom podermos imaginar tudo isto... Afinal, só o que imaginamos é real.

Beijos e_ternos

Nei Duclós disse...

A palavra intensa, de espírito habitado, sem freios e ao mesmo tempo finamente elaborada, é a marca desta poeta de primeira água, que nos encanta a cada novo post. Versos inesquecíveis de um tempo mágico, inventado e por isso real, que vem de fonte de água limpa e nos banha para sempre.

Milene Cristina disse...

Sempre passeio por aqui. Seus textos são inspiradores, me fazem refletir ao mesmo tempo que traz uma paz alegre e amor em cada linha. Como um lugar bom em se estar. Beijo!

António Jesus Batalha disse...

Estou alegre por encontrar blogs como o seu, ao ler algumas coisas,
reparei que tem aqui um bom blog, feito com carinho,
Posso dizer que gostei do que li e desde já quero dar-lhe os parabéns,
decerto que virei aqui mais vezes.
Sou António Batalha.
Que lhe deseja muitas felicidade e saúde em toda a sua casa.
PS.Se desejar visite O Peregrino E Servo, e se o desejar
siga, mas só se gostar, eu vou retribuir seguindo também o seu.

Karine Tavares disse...

Teu blog é lindo, parabéns!

Passa lá em casa hoje:
leiakarine.blogspot.com

antonio j cerqueira disse...

q fôlego no txt! curto um jornalismo-arte, e são raros os exemplares d vigor nos pulmões q nem o dessa menina!!

z i r i s disse...

Espreguiçarei esta frase amanhã bem cedinho quando abrir os olhos...

Bem-te-vis ocultos cantam extasiados nos galhos e, muito embora não possamos vê-los, é certo que ensaiam para algum concerto. Em silêncio os escuto para ver o que aprendo.



Um beijo

Cristiano Guerra disse...

Ai, Pipa. Quando não te leio, me faltas tanto.

E esse mistério de sonharmos, é que não imaginamos: somos.

Continuo, sempre, te abraçando apertado.