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1.26.2013

Petrichor

A esta hora da madrugada as horas já não andam, se arrastam. Uma brisa almiscarada se solidificava no ar. A alma, açucarada, orvalhava. Sentada nesta poltrona, medito sobre a distância que nos separa. Muito pouca. Qualquer coisa entre uma mão e outra.
Arrisco um mergulho no oceano de meus pensamentos e adianto-me aos sentimentos que ainda não podem ser expressos. De olhos fechados, num estado ébrio de sonambulismo, meu espírito sai à deriva e veleja, sereno, ao teu encontro. Como um vento manso, de lábios mornos e gestos trêmulos, chego ao teu quarto. As cortinas se agitam. Inquieto, teu corpo se vira de um lado para outro. Observo o modo como teus dedos recobram o aconchego perdido do travesseiro. Teus lábios estão entreabertos. Penso em quem teria te dado este exemplo e sorrio em silêncio. Em segredo, às escondidas, a criatura de sopro vela teu sono. 
Um cheiro impossível, sonhado por pelo menos cinquenta mil compostos químicos se desprende de teus lençóis brancos.  Inconscientemente, absorvo o sumo de tua alma, de mim, já tão infamiliarizada. Como fosse um engenheiro químico de sentidos, à pouca distância, usino-a, engarrafo-a, eternizo-a. Destilo o prazer imenso de testemunhar os pequenos eventos cotidianos e rendo-me à contemplação do etéreo. Gota a gota, a boca instila: E-n-c-a-n-t-a-m-e-n-t-o. Eis a senha que haverá de abrir o portal do nosso extremo. 
Mas este perfume não me prende, liberta-me.  Tomo posse da chave do enigma e imagino um esconderijo onde eu possa guardar a minha poção mágica. Na ânfora dourada de uma felicidade que não se imaginou senão como impossível para esperá-la. Ou, talvez, quem sabe, debaixo daquelas folhas em forma de asas que batem em revoada, reverenciando a fragrância balsâmica da chuva mulher que não tardará a arranhar as costas de tuas vidraças. Tudo pelo milagre desta miragem. Eu vou atirar palavras aos céus. E voarão, livres como pássaras, pousando serenas sobre tua janela.
Subo pela encosta do teu sonho, guiada pela iluminância daquele céu semeado de estrelas que outrora, contemplávamos atrás das montanhas. Só se sabe da chuva, quando as lágrimas de meus olhos vicejam para além do cume que lá transborda.  As paisagens crepusculares constelam-se-me aos olhos,  como cristais de quartzos que brilham vítreos à espera de mãos sinceras que possam lapidá-los.  Venha logo, Sol, por mim sonhado.
Coloco o indicador entre os lábios como se quisesse e pudesse silenciá-los, mas, se escuto o pio de um pássaro, me ponho a catalogá-lo. Entreabro-os. Quase que hipnotizados pelo sabor vaporoso de um aroma novo. Este mesmo que teus lábios tão delicadamente me sussurraram. "Petrichor"... Esta poeira estrangeira de pedras preciosas a refulgir na alvorada. Esta umidade anônima dos pingos da chuva a provocar estalidos operísticos na terra seca de nossos ouvidos. Este silêncio ágrafo de gritos que, contudo, não fazem qualquer ruído. Esta memória silvestre de essências exuberantes que  atravessaram o deserto do tempo e se prolongaram no ar, na terra, na água, nas folhas, nas matas, nas pedras, por amor genuíno ao exercício incondicional da entrega. Estes pintassilgos que inventaram um novo canto, extasiados pelo aroma vivificante de terra molhada que exala de teu corpo. Esta brisa em pó que, com seu pente invisível, nos desembaraça os sentidos.
A chuva tornou a cair atrás das vidraças.  Uma chuva fina, volitiva, amainada. Como fagulhas ígneas que explodem reluzentes dos olhares em brasa.  As casas e prédios do  bairro estão cobertos por uma espécie de véu prateado. Mas não estão solitários, ao contrário, descansam níveos, amparados pelos anjos de asas incipientes que brincam distraídos pelos telhados.  Sobre o criado mudo, os ponteiros de teu despertador marcam: 04h:04min. Estão por quinze minutos atrasados. Penso no que estes números emparelhados representam. O mundo está cheio de símbolos. Algumas pessoas nem desconfiam. Mas há corações batendo por trás disto.
Adormecemos sob a penumbra violácea da madrugada, sentindo na pele um frio intenso, mas que, estranhamente, aquecia nossas almas. Despertei com o estrondo de teu nome em meus lábios. Era o coração tentando recobrar o contato.
Adiantei os ponteiros de teu relógio interno. Acorde amor. O tempo está nos absorvendo.


Lídia Martins

14 comentários:

placco araujo disse...

"O mundo está cheio de símbolos. Algumas pessoas nem desconfiam. Mas há corações batendo por trás disto."
Alguns ponteiros não são suscetíveis ao adiantamento...Tem um ritmo próprio de andar.
Saibamos lidar com eles doce pássara!!

Roberta Repezza disse...

"...Adiantei os ponteiros de teu relógio interno. Acorde amor. O tempo está nos absorvendo."
Obrigada, Lídia, por nos proporcionar tanta verdade, beleza, emoção! Obrigada, Lídia, por nos proporcionar a sua beleza, intensidade e generosidade. Obrigada!

Camila disse...

"Mas este perfume não me prende, liberta-me. "

Eu sei como é sentir isso.
Belo blog.

Diego Leão disse...

04:04h...

4 são as estações, 4 os elementos. Primavera, Verão, Outono, Inverno. Sempre rumando pra algo e sempre em retorno. Água, Terra, Ar, Fogo. Constituindo a própria vida.

4 + 4 = 8 e 8 é o ciclo permanente. É nunca ter partida e nem chegada. É a infinitude plena.

Isso vai ser quando o tempo não puder mais nos absorver e todo instante belo, como este que grafou com vida, será eterno.

Fabi disse...

Este blog é feito para reler e ler sempre!

ediney santana disse...

um mergulho profundo em sentimentos que nos são caros e necessários

Relicário disse...

Os cheiros, os perfumes são para mim como bebidas sofisticadas. Embriago-me.

Beijo na alma,
Samara Bassi

Wilson Vaccari disse...

Martins, si ti interessa discussão poética, leia meu garranxo em http://wilvaccari.blogspot.com/2013/02/february-11.html

Anônimo disse...

Aqui para te falar que é muito emocionante para mim ser uma dessas 200 mil visitas!

z i r i s disse...

Do que ia contextualizar, nem me lembro. Estou salva agora, até de mim.

Eu penso no que estaria você pretendendo com isto tudo, além de dar mais poesia à estes códigos binários comuns fazendo-os chover perfumados e assim tão mansos...

E eu que um dia pensei, que para descrever algo assim, mais algumas porções de palavras teriam de ser inventadas.

Um brinde ao que se sente!


Cheers!


Ziris


Asas que ultrapassam os domínios do Sol disse...

Oi Pipa, estou voltando ao seu lugar cheia de felicidades. Fico feliz por saber que você permanece e saiba o que já está aqui já é imortal. Abraços, Hilda freitas, São paulo.

Rafaelle Melo. disse...

" Despertei com o estrondo de teu nome em meus lábios. Era o coração tentando recobrar o contato."

No secreto nome, no silêncio de uma constatação de genuíno sentimento, em meio a um indicador que busca guardar, o fato: recobras contato contigo mesma, com tua essência de amar!
Fazes contato com algo que antes aparecia como que tentando se equilibrar entre uma linha e outra das tuas escritas. Hoje a inteireza das palavras fazem o coração que te lê saltar em júbilo.

Brindemos a este coração saltitante e sobretudo vivo, fênix, que, enquanto movimentam-se os ponteiros, vai reencontrando a própria existência.

Um beijo!

Anônimo disse...

Nusga!
A questão colocada/ não colocada para a própria Literatura atualmente é inextrincável.
E q "as palavras não nos pertence" -
Vc parece estar decidida a nos provar o contrário.
Tomada a Lição, andemos com essa Carroça e façamos Amigos.
E ajude-me a gastar este versinho titiritante q me martela de tão doce q foi esta manhã de Domingo:

Bom mesmo é carregar pedra!
e suar de bicada!
depois botar um som
e dá uns biliscão na namorada!

lfr

António Jesus Batalha disse...

Olá , passei pela net encontrei o seu blog e o achei muito bom,
li algumas coisas folhe-ei algumas postagens,
gostei do que li e desde já quero dar-lhe os parabéns,
quando encontro bons blogs sempre fico mais um pouco meu nome é: António Batalha.
Deixo-lhe a minha bênção.
E que haja muita felicidade e saúde em sua vida e em toda a sua casa.
PS. Se desejar seguir o meu blog,Peregrino E Servo, fique á vontade, eu vou retribuir.