1.31.2012

ESPELHO QUEBRADO. REFLEXO INTRINCÁVEL.


Eu não pertenço à palavra. Pertenço a este canteiro de margaridas. E a beleza murcha deste dia vestido em cem tonalidades de cinza.
Os corvos se empoleiraram em meus olhos de modo inesperado. Tentei detê-los. Mas as minhas mãos estavam fracas demais para afugentá-los.
Assistindo a chuva avermelhada que cai atrás das vidraças. Abro as janelas e deixo que este indelével aroma de feridas frescas perfume a casa. A noite, inexorável, cobre com seu manto negro o rosto de um Deus molhado.
Os flocos de areia deslizam seus dedos trêmulos sobre as curvas da ampulheta. —"Mais devagar!" — disse ela. — "Quieta! É o tempo quem dita as regras" — cortou ele sem nenhuma paciência.
Que barulho foi este na soleira da porta? Melhor eu checar o que se passa. Não foi nada. Era só o vento tentando mobilizar minha sombra. Rompemos. A exatamente — vejamos: não é possível que já tenham se passado tantos anos. Vendo que sua companhia me pesava como uma prensa hidráulica fui obrigada a tomar uma decisão forçada e acabei por me render aos férteis impulsos da raiva. Expulsei-a de casa. A sombra, ou, se preferir, a minha alma.
Em sua defesa, a sombra alegou que era inocente e que não poderia pagar por aquele crime de inércia e, ao final, declarou sem nenhuma misericórdia que não iria à parte alguma. Ao invés disso, instalou uma barraca lá fora e ao acampar no jardim que cobre a fachada, ela acabou por enfeitiçar todas as rosas com sua tristeza. Percebendo que ela não desistiria tão cedo da idéia de continuar à minha porta, troquei a fechadura, temendo que, no meio da noite, eu pudesse receber alguma visita indesejada. Sempre fui fiel a tudo o que senti. Inclusive à raiva, sobretudo quando a entendi legitimada.
Mas hoje caí numa fossa oca, sabe? Ainda bem que não era de mármore. Talvez eu deva repensar a minha decisão e praticar um ato de caridade, salvando o que ainda resta do meu canteiro de margaridas e, com sorte, a providência divina reconsidere o meu pedido de resgate e me tire desta "fossa das marianas." As flores do canteiro perderam o viço e, possivelmente em razão do descontrole afetivo que a presença de minha sombra deve ter provocado, todas, sem exceção, secaram.
Abri a porta.
— Ainda está aí? — perguntei.
— À sua espera — escutei.
— Você está bem?! — insinuei.
— Não — adiantou sua respiração.
— Entre e sente-se — suspirei.
Preparei-lhe uma beberagem e coloquei sobre a mesa uma xícara ainda fumegante de minha especialidade. Situações mal-resolvidas, além de muitas preces, exigem altíssimas doses de cafeína.
— Café?! — ofereci.
A sombra estendeu a mão para a xícara e sorvendo o aroma com expressão embruxada, decidiu recusar minha oferta.
— Pode bebê-lo. Não tem veneno — ironizei.
— “Se não se importa, vou preferir um copo de água.”
— Natural ou gelada? — completei.
— "Temperada” — exigiu.
— Sinta-se em casa — anunciei.
Existem coisas que é melhor que a gente mesmo faça, sob pena de não sair da forma desejada, sobretudo quando se tratar de pessoas cujas portas da exigência possuem dimensões estreitadas. Pouco, ou quase nada, passa. E, depois, dizem que a água faz milagres. Cura até falta de coragem.
Esperei pacientemente até que a sombra preparasse o seu antídoto contra nostalgia e o tomasse de um só gole.
— “É disso que você precisa. De sede. E da vontade de beber” — aclarou.
— A solidão acabará nos apodrecendo — sentenciei inapelavelmente, fingindo apreciar um café que amargava desde a língua até o ambiente.
— “Diga Ahrrrrr" — confrontou a sombra.
— Ahrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr — obedeci mostrando o sino da garganta.
— “Deixe-me fazer uma inspeção detalhada de sua língua. Era o que eu previa” — diagnosticou a sombra fazendo aquele gesto fúnebre dos alunos do primeiro ano do curso de medicina.
— "Sua língua está toda vermelha" — prognosticou a sombra sem qualquer delicadeza.
— Deve ser de tanto falar besteiras — concluí bancando a otorrinolaringologista de mim mesma.
Baixei a cabeça como se quisesse e pudesse... Reverenciá-la?! Não. Acho que amaldiçoá-la. Detesto ter que admitir isto, mas ela estava certa. Fizemos uma pausa dramática para uma respiração e, suavemente, aproximamos nossas mãos. Segurei-as com toda força que meus dedos conseguiram reunir e ordenei — Não as solte. A sombra obedeceu no mesmo instante. A vantagem de se ter amigos sensitivos é que eles têm um par de antenas ao invés de um par de ouvidos. Minha sombra é prova disso.
Muitas vezes fui o que disseram de mim. E algumas coisas ficaram gravadas para sempre. Como um número de série. Fechei os olhos. Sustentei-os por infinitos segundos. Fez-se um silêncio científico, quase absoluto. Por um instante, senti que entrava em uma espécie de galeria de espelhos e a medida que me aproximava, o meu reflexo se embaralhava. É como um espelho de alta e enigmática imprecisão. Caio infinitamente para dentro, em busca de um reflexo que nunca saberei se pertence a mim mesma. Do espelho, tenho sido o reflexo. Quando some, a imagem assoma-se à forja sagrada do mistério.
Abri os olhos. À minha volta, cai o muro do mundo em que acredito. Ou, se preferir, que fantasio. Escrevo para pessoas que nunca existiram. Exceto, pelo breve instante em que estiveram comigo.
O lápis, em riste, aponta para o calendário. Não há registro de alegrias. Isso não foi planejado. O grafite risca mais um dia no papel sem timbre. Em minha vida, chovem dias, semanas, meses e anos inominados. Nas mãos de uma menina, as páginas destacadas se esvoaçam. No quintal, uma senhora recolhe folhas de um tempo desperdiçado.
Segurei o lápis com certo garbo. Baixei os olhos e eles continuaram varrendo o chão, salpicado por confetes de carnavais passados. O poço negro e sem fundo onde os mergulho é sempre o mesmo. E especialmente hoje, eu não posso descrevê-lo.
— "Por trás das cortinas de neblina que saquearam as cores deste dia há um arco-íris perdido. Consegue vê-lo? Eu consigo" — levantou uma voz vagamente familiar às minhas costas.
Empunhei o lápis no mesmo instante para ver o que era.
— “Pode tentar!” —  convidou na mesma hora.
— Girei o olhar em câmara lenta e perguntei:
— Quem é você?
— “Espelho quebrado. Reflexo intrincável. Entende agora porque não saio? Moro no sem fundo gelado de teus olhos, moça do lago.”
— Mas você veio, Beija-flor. Brincas na varanda de meus olhos frios. No espelho, teus gracejos aéreos restituem um reflexo perdido.
Agora a tempestade se dissipa. O vento em riste foi reiventado pelo vestido, vela da paixão sem medida. Olhei o céu. Incendiado de estrelas. A dourar o firmamento, um balé esplêndido de faíscas coloridas. Tomei nota do aprendizado naquele dia: Dê vida ao fogo. Jamais às cinzas.



Lídia Martins


12 comentários:

Nei Duclós disse...

Pipa conversa com a linguagem, que toma várias formas e adquire o tom de muitas entidades. É interlocução entre poeta e poema, entre mulher e seus delírios e vidros. Fragilidades que se esforçam no chão minado de imagens inesquecíveis. Tudo varrido para dentro de nós como um tesouro oculto. Saímos habitados dessa leitura de labirintos. Arrasados de tanta poesia. E de beleza, especialidade da dona da casa.

Lia Araújo disse...

Pipa, tá doendo aqui...
Eu não consigo ver o espelho... não consigo mais olhar pra ele...só vejo os meus sonhos estilhaçados...
Me ensina a alimentar o fogo... alimentar o que ainda vibra...o que ainda pode aquecer...
Traz a vassoura de espalhar o pó de estrelas e me ajuda a varrer a minha casa?Queria ela toda iluminada... sem os confetes de chão pisado que não amanheceram...
Deixe coisas fora por um tempo... mas, elas ainda me assombram...

tu és sempre tão sábia...tu soube exorcizar os monstros todos...
Deixou o Egito pra sempre?Sem Pirâmide ou Faraó.

Que os ventos te sobrem, que o Chico te cante herói, que tu sonhes sempre!
Que teu céu se abra cada vez mais...e que as estrelas incendem cada vez mais teu ares.

te abraço...
Reconfortemos...
Com a esperança de que a vida segue e que o céu é maior que toda terra que nos limita.

Cronollogias disse...

Quando te leio, eu realmente sei que tenho paixão pelas palavras. Nenhuma delas aqui, esta perdida, todas me levam por um caminho inesperado. Hoje tu "doeu".Não sei, sinto mais do que explico. Parece que pesa no ar, uma puríssima melancolia.
No entanto li e reli, não queria que acabasse ...
Saudações!

JasonJr. disse...

Deixando a minha beijoca porque faz tempo qu'eu não passo por aqui né Dnª Pipa! :D :D :D

Fernanda Curcio e Leonardo Macedo disse...

Teus olhos esvidraçados são prismas idolatrados pelo arco-íris encantado.És deusa feita de poesia, um sem número de cores reinventadas pelo infinito.És indefinida.

Fernanda

Fernanda disse...

Brilhante Lídia!
Absolutamente fascinada pela poder da tua escrita.

Continua a dar vida ao fogo, pois de cinzas ninguém vive.

Beijo meu

Alvaro Vianna disse...

Tuas imagens me provocam vertigens.
Em abismos caímos nós quando te lemos. A gente podia se ver no ar. Entendi: em queda livre.
Ao menos há uma promessa de colchão lá embaixo. Esse que de que nos dão notícias os fantasmas dos espelhos, as sombras sem-terra ou as crianças do bem fundo dos olhos. Ah, você não escreveu da criança. Eu que quis entender assim.

Beijo, minha querida

Roberta Mendes disse...

Ah, Lili, isso que te faz inteira, mesmo quando em pedaços. Tu, de natureza especular. Ao te quebrar, apenas multiplicava os reflexos do próprio rosto. Ele deveria saber.

Rafaelle Melo. disse...

Lídia Martins,

Você estava certa! Fui lendo esse texto e me peguei rindo, horas séria, e tantas outras muda. Nada que você já não tivesse me causado nestes teus labirintos de tanta poesia.

Mas hoje, algo teu me tocou diferente e eu não tentarei dizer o que foi, pois será vão. O fato, hermana, é que vc me emociona de formas que eu não tenho catalogadas, e essas emoções são as melhores que se pode ter.

Vou tomar em mãos tuas derradeiras linhas nesta viagem:

"Agora a tempestade se dissipa. O vento em riste foi reiventado pelo vestido, vela da paixão sem medida. Olhei o céu. Incendiado de estrelas. A dourar o firmamento, um balé esplêndido de faíscas coloridas. Tomei nota do aprendizado naquele dia: Dê vida ao fogo. Jamais às cinzas."

Estas levarei comigo, caso me permitas. Será uma parte tua, minha, nossa. Mais um símbolo do seu/nosso (re)nascer.

Nei estava certíssimo ao te chamar Fênix. És sim, mas talvez você tenha o dom não de renascer das cinzas, mas do fogo, da luz!

Te abraço apertado!
Com carinho da sua beija-flor,

Salve Jorge disse...

Atiça a chama
Chama
Aquela vozinha que reclama
Conclama
Ao sabor do vento que alimenta
Aquela vida que arrebenta
E assoma acima da tormenta
Até se tenta
Mas é tanto que o crime não compensa
Névoa densa
Vida imensa
Quanto mais se pensa
Menos se faz
Então, se algo nas cinzas jaz
Há que se fazer um algo mais
E multiplicar o que se trás
Crime atroz
Seríamos nós
Chegarmos à foz
E não curtir o mar...

docerachel disse...

Uma janela se abre...

Be Lins disse...

O espanto de estar vivo parece pequeno frente ao espanto do que se repete:
chove, tempestades, ( tsunamis?),
tudo fica cinza, clareia, faz sol, tudo fica azul e rosa e lilás, céu cheio de estrelas, muito calor, mais calor, nuvens, cinza, muito cinza, arma-se o temporal, chuvas, lágrimas, breu, silêncio, fantasmas, velas sem pavio, ruídos, extra terráquianos, vento, tudo se vai, branco, azul claro, suave, alegre, nasce o sol, entre nuvens...

E agente ali,
na janela.

Beijo de férias, querida minha!


Be