9.07.2011

O Ano da Morte de Hannah Reis








"Saio de casa, de moto, no frio…

_ Saio nua da coxia…

_ Saio para ver Ana Reis, a menina que dançou com beterrabas, que eu ainda não sei quem é. No Teatro, poucas pessoas – 27 ou 28, no máximo – Em mim, pessoa alguma. O palco montado em arena (tenho de revisar o livro de Ana Said sobre o Teatro de Arena de São Paulo). Sento-me à esquerda. Sempre sentei-me à esquerda, mesmo num círculo. No palco, duas bacias grandes; uma de uma água turva como meus pensamentos; outra vazia, como meus pensamentos; outra ainda menor, para o banho (que saberei mais tarde); e vários rolos de algodão desmembrados, desenrolados, sujeitos. À direita, ao fundo, uma colônia de caquis (uma fruta sem graça como essa vida). À frente, frutos enormes de bucha seca. Enormes e secas e ásperas e fálicas e ocas… Ana entra. Nua. Não há música.

_ Entro na luz da arena. Vinte e sete pessoas. Vinte e sete dias sem sangrar. Eles ainda não sabem, mas serão meus leões esta noite. Eu, o seu Daniel.

_ Ouço um barulho no alto, na técnica. Um rumor intermitente de quem desconhece a obediência ao silêncio em um espetáculo. Lembro-me de Um Dia de Fúria. Lembro-me de um taco de Basebol (ou de sinuca). Lembro-me de miolos espalhados pela mesa de som e luz…

_ Estou cheia de feridas e preciso me curar. Faço compressas de ervas para cada uma de minhas cicatrizes abertas – são tantas! Meus pés, que tanto me levaram e rodaram por viagens várias que fiz, e que ainda vou fazer… Meus tornozelos e meus joelhos, que em tantos saltos e quedas sempre me ampararam – e que doem sempre… Minha vulva exposta, minhas nádegas, minhas coxas,  minhas costas… Ombros e braços que carregam meus sonhos – coitados… Minha nuca que pede um beijo, mas o beijo do inverno é frio… Minha testa em febre…. Passo agora para o meu outro corpo. Para banhá-lo. E o banho em ervas puras e nuas como este corpo. E o banho de uma água turva, como todas histórias turvas e personagens turvas que já interpretei. E o banho demorado e sem tempo. E permito ao corpo o cheiro das ervas que o lavam… Outro corpo tem fome. Uma mesa repleta com os frutos da vida – frágeis – doces para uns; sem gosto para tantos… Eu como e me lambuzo e cuspo e como e me sujo de vida e como e vomito e como e me lambuzo e vomito a vida e como o vômito da vida e me lambuzo de vida e de vômito e como até que tudo seja um caldo único… Outro quer se limpar dessa vida toda, na angústia e nascer de novo. Cinquenta e quatro olhos a devorar este corpo.

_ Não entendem. Fingem que entendem. Entendem que entendem.

_ Esfrego este corpo na aspereza de cada olhar. Na aspereza de todos os olhares do mundo. Esfrego e arranco cada pedaço de olhar sobre minha pele toda. Quer me comer? Minha bunda é bonita? De meus seios jorra o néctar dos deuses? Arranco tudo. Arranco minha pele se for preciso, até que derrame sangue e me lave com esse sangue e me purifique de todos os olhares. Olho, em cada olho que me olha, com raiva e súplica…

_ Ela me viu!!!

_ Quero me sentar. Quero me desfazer. Quero me rasgar. Encontro-me no que é áspero e fálico e seco e oco e sem vida. E rasgo e despedaço. E desfio e estripo. E desconstruo e esfacelo com força. Até que eu me canse. Até que eu me esgote. Até que as mãos sangrem. E cubro-me de todos os meus pedaços. E aqueço-me com o que há em mim. E junto-me dessa colcha que sou para me deitar. Estou cansada…

_ Já está deitada há cinco minutos e ainda vejo seu peito arfar; e ainda ouço sua respiração ofegante. Cinco minutos eternos e desconcertantes. Há um rearranjar de corpos na arena que circunda. O desconforto é palpável. Eu apenas a olhar os seus olhos fechados. Os olhos da bailarina estão fechados. Os meus não querem sair dali. Mais minutos eternos se fazem e nem a luz se abranda. Outros estão a sair. Eu quero gritar. 

Quero gritar até enrouquecer. Quero um poema de Pessoa…

“Cada dia sem gozo não foi teu
Foi só durares nele.
Quanto vivas Sem que o gozes, não vives.
Não pesa que amas, bebas ou sorrias:
Basta o reflexo do sol ido na água
De um charco, se te é grato.
Feliz o a quem, por ter em coisas mínimas
Seu prazer posto, nenhum dia nega
A natural ventura!” (Ricardo Reis)

E então aplaudo. Aplaudo sozinho. Aplaudo a toda minha vergonha. Essa vergonha de mim mesmo. Choro o que é possível (ultimamente, as bailarinas têm feito isto comigo: enchido estes olhos de  mar. Não sei se sinto raiva… ou se agradeço.).

_ Alguém aplaudiu minha morte… Mal sabe ele que renasço daqui…"



"Discípulo errático de cinco perfeitos: Um Anjo Torto a me guiar pelas ruas, Um Anjo Pornográfico dos buracos das fechaduras, Um Machado sarcástico a cortar sem ter sangue, Um Poetinha inzoneiro das penas do mangue, E de um Chico brasileiro, feminino como luvas de boxe."


Esse é Guimarães Lobo.

Texto originalmente publicado na Seção de Colunistas do Página Cultural de Uberlândia-MG.


Bem, quem me conhece sabe que costumo usar o meu espaço para dividir talentos. Por essa razão, chamo à ordem um dos representantes da cultura de nosso Estado, este LOBO indômito, imundo e esquálido que caminha em ofensiva sagital em direção à palavra.  Depois de ler este texto, lembro que saí caminhando sem rumo. A chuva batia com raiva no pára-brisa das pálpebras e não descansou até deixá-las inchadas.  Horas depois, empapada até a alma e tiritando de frio, protegi-me debaixo da marquise de uma banca de jornal. E  fiquei ali, nonense. O dilúvio  de sal, inexorável,  levou com ele a noite.

Espero que gostem.

Um beijo,
Pipa.

3 comentários:

Alê disse...

Que saudade estava das palavras,


Bjkas

Gislãne Gonçalves disse...

Eu gostei!

:)

Belíssimo.
Já tava com saudades daqui

Beijos

Roberta Mendes disse...

Tu, farejadora de essências, vais à frente da matilha. Seguimos famintos, salivantes, a tua caça por saciedade.