3.13.2011

Verão na alma





Imagem: Deviantar't





Aconteça o que acontecer, passem largo de um Cabernet - menti. Nos refugiamos numa velha pizzaria, onde as refeições eram servidas em botinas, congas, anabelas, mocassins, rasteirinhas, e outros calçados que o cardápio não se atreveu a dar nomes. Oportunidade em que optamos por um Luis XV, de modo a não perder o requinte, e fizemos um pedido de mato com tomate seco. O Monstro de Chocolate disse-me uma vez que é necessário que haja harmonia entre o vinho e a comida. Considerando sua forma física, percebi que não tinha outra saída.  Graças às suas acrobacias culinárias, seus atributos corporais lembram qualquer coisa resultante do cruzamento entre um elefante e um hipopótamo africano. Quando a refeição foi colocada sobre a mesa, tive a sensação de que o chefe de cozinha tinha devastado todas as florestas do planeta. Ele trouxe-me um presente. Um creme. Como está em inglês, ainda não consegui descobrir para o que ele serve. Com uma paciência tibetana, ao sinal do Monstro de Chocolate, o garçom assentiu com um gesto cerimonioso, trazendo nas mãos um membro da  casta família de uvas Sauvignon da mais fina reserva chilena. Quando a rolha  saltou da garrafa, tive a impressão de que ela deixou escapar um suspiro de alívio, como não respirasse há milênios. Nos 750 mls iniciais nossas línguas ficaram revestidas de um tecido avermelhado que me remetia a ideia de sangue fresco. Levantei-me da cadeira e me dirigi até o banheiro. O espelho me mostrava uma vampira sem as presas, mas com um sorriso frívolo. Nos 750 mls seguintes, Baco  e Dionísio já tinham me aparecido com uma coroa de folhas de parra, empunhando uma lança enfeitada, e sorrindo com a sensualidade que prometem os pileques depois que se chega ao fundo da garrafa. Cogitei se aquela não estava com o fundo perfurado. Pensando nas confissões que aquele vinho tinto nos tinha arrancado, posso afirmar com toda segurança que nunca nos sentimos tão amados. Tentei refletir sobre tudo aquilo. Cheguei a conclusão de que finalmente tínhamos ascendido ao plano espiritual e estávamos no purgatório esperando a qualquer momento que Deus nos absolvesse, dando-nos apenas um castigo temporário, e se isso não fosse possível, que nos entregasse à sentença do Diabo, cujos secretários tinham que dar um duro danado para suportar o perfume importado do Monstro de Chocolate - que a julgar pelo meu faro, tinha um inconfundível cheiro de chouriço mal curado. Nossos olhares deixaram de lado aquela troca de acusações, restando no lugar delas apenas uma singela compreensão. Percebi então, que tínhamos nos perdoado. Àquela altura da ebriedade, qualquer discussão soaria impraticável. Deixamos o recinto e partimos em busca de um caldo que pudesse revigorar-nos. O esfomeado além de comer toda a pizza, como se esperasse ver naquela floresta algum vento que lhe entregasse um pensamento mais apresentável, ainda conseguiu devorar um pote que continha uma substância amênica, saboreando-a vorazmente, sem nenhuma ciência. Penso que tenha imaginado um confit de pato, pois, cada vez que levava o talher aos lábios, parecia arrancar-lhe os pedaços. Se é que ele o tenha feito, considerando a pressa, deve ter começado pelas pernas e terminado pelas asas, como se temesse que seu jantar descesse a qualquer momento pelas escadas. Tontos como uma cabaça, voltamos para casa. Lembro que choveu a noite toda. Em silentes pingos letárgicos, a chuva caía como um pranto derramado. Levantei os olhos para o alto como se quisesse capturar no ar alguma palavra nele deixada e  nada. Compreendi que o céu daquela noite estava emocionado. Na escuridão avermelhada da madrugada, abriu-se um verão na alma.   Os desenhos nas nuvens voltaram. Neste exato instante, duas tartarugas sem casco se arrastam sobre o meu telhado. Continua o mesmo bicho verde e lerdo de sempre. Lembro que tentei escrever. Nas minhas mãos, minha underwood não tinha muito a dizer. Naquele instante percebi que eu estava plena. Por ironia do destino, em pensamento, ele veio comigo.  Terminamos a noite sorrindo. Isso bastou-nos para compreender que nunca estivemos sozinhos.  O propósito do Cabernet não foi outro senão o de  inaugurar em nós a espera. Pode até ser que o destino nos surpreenda, mas temos motivos fortíssimos para acreditar que ela valeu a pena.




Pipa. Agora eu era o herói.

19 comentários:

Noe* disse...

Sabe o que eu mais gosto em seus textos?
O fato de que nenhuma linha deixa de SER algo, de significar algo.

Menina-pipa... te deixo um beijo!

WILSON disse...

"(Come chocolates, pequena)
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho."


Talvez seja o poema mais conhecido de Álvaro de Campos. Quantas vezes me senti como ele. Com inveja de uma menina inocente que come chocolates. Este verso expressa a angústia do homem moderno, que não encontra mais ponto de apoio para suas inquietações e por isso se entrega ao desespero, até que um dia eu cansei. E sabe o que fiz? Eu fui buscar minha garota Lídia. Com o tempo desisti da ideia de que nada vale a pena porque não queria terminar solitário como um cachorro. Porque mais dia menos dia, bateriam em minha porta e encontrariam um velho morto. Estou vivendo um sonho Lidia, e vou aproveitar cada segundo dessa sensação de euforia, porque o sonho pode durar pouco.

Eu sempre tive a impressão de que ele voltaria para resgatar o romantismo descumprido. Vamos ver se ele será digno de tudo isso.

Wilson, seu amigo, o terceiro homem

Rafaelle Melo. disse...

Pipa querida,

As vezes sinto que mergulho tão fundo nos teus escritos que sua vida me é tangente e que a conheço com uma particularidade amiga.
Sempre tive receio de torcer pelo Monstro de Chocolate, mas sempre torci. Quem sabe porque também torcia pelo meu, que se não é de Chocolate tem ao menos um cheiro doce e um certo vício envolvido.


Tenho que assumir, com certa timidez esperançosa, que estou feliz que a espera esteja parecendo valer a pena. A verdade é que sei que a minha também está.


Espero que continue valendo a pena, e valerá pois tua alma, Pipa é grande, é imensa.

Te abraço.
Me abraças.

Anônimo disse...

De olhar esse papo de homem e menina, não sei se uma fantasia... mas nesses diálogos de além textos vejo um homeme casado que se aventura por entre a pipa que voa alto no céu... Errado? certo? me insulte então... ou cale-se...

Pipa. Agora eu era o herói. disse...

Bom dia Anonymous


Ah sim. Me esqueci de mencionar.O Monstro de Chocolate é casado e tem oito filhos. Nenhum deles se parece com ele. Ele só me procura porque se sente grilado, rs.

Ele tem vinte e nove anos, transborda solteirice, e sou a única chance de ele não morrer beato.

Te abraço com respeito.

Anônimo disse...

sera? rsrs

Leo disse...

Eu sei que o monstro de chocolate quer permanecer, ficar. Ele sabe
onde é que mora, sabe onde o sol
floresce e as flores brilham.

Como diz Caetano Veloso em uma canção, acho que ele está só preparando a hora de voltar.

As vezes a gente tem que ir e ver de fora onde é o nosso lugar.

Um Beeeeijo grande!

Adoro as tuas metáforas, que dão um outro sentido aos textos teus.

Roberta Mendes disse...

Doces Delícias e vinhos reconciliam, senão as almas, pelo menos os paladares. Quem sabe, com o tempo, as línguas voltam a compartilhar outros sentidos...

Mulher Vã disse...

Mas que grande e nauseabundo blá!

Ahn sempre o feio e gordo monstro de chocolate..tsc tsc...
[gordo sim, onde ja se viu uma criatura de chocolate ser magrelinha?!], deve ser cheio de espinhas tambem!
Mas sabe de uma coisa, parece assim se voce não tiver ele em sua vida, ela estaciona e voce não consegue fazer mais nada, muito menos escrever. É como se voce precisasse dessa dor besta pra pode viver, por outro lado se voce sente falta, não faz tanto mal assim né?! Tipo dói mas não doi!
Não sei se esse encontro mediocre foi só imaginação dessa sua torta cabecinha, mas se foi, faltou um sexo selvagem bem a moda monstro né não?
Po! Ficaram bebedos, fizeram a cabeça com um vinho doidão que mais parecia chá de cogumelo, viram coisas e...só!
Ahn vá...
Conta outra!
Rá!
Todo bebado acha que é amado, e toma cuidado porque CU de bebedo não tem dono. No fim das contas, uma das ultimas vidoes foi tartarugas sem casco arrastando no telhado, isso foi o cumulo da decadencia, não é de admirar que até o céu tenha chorado!
Quem espera sempre alcança. Muitas vezes é bom esperar...sentado.

Voce tem talento demais pra achar que só esse idiota pode ser seu combustivel, acorda.

Te estapeio sem reservas.

Me indefira pro cê ver!

Pipa. Agora eu era o herói. disse...

Oh céus, mulher Vã.

Sua língua precisa ser lavada com soda cáustica!

Do que mesmo estávamos falando? Ah sim. Da sua falta de respeito. Um caso crônico. Quando olho para você a única impressão que consigo resgatar é a de um grito. Um grito desesperado de ajuda, vindo diretamente do abismo das loucuras de sua mente perversa. Se suas visões proféticas não estivessem tão equivocadas, eu te daria o Oscar de Portadora das trevas. É impressionante como você só consegue ver através delas.

A propósito, a única coisa que eu dei pra ele, foi a oportunidade de me reconquistar.


Eu ia dizer outra coisa, mas as palavras morreram em meus lábios, sem explicação alguma.

Pipa. Agora eu era o herói. disse...

Roberta? chamei.

Fecha os olhos.
Pronto.
Agora pode abrí-los.
Tá vendo só essa careta? É só minha língua roxa tentando reunir forças para dar ao seu comentário a importância que ele merece. Você é o tipo de mulher pela qual um homem faria qualquer coisa - quando digo qualquer coisa, me refiro a viver, morrer e matar. O que fez com o último que passou pelo seu caminho? O induziu ao suicídio?Você é uma sedutora. Se ele não estiver morto, está esterilizado, no mínimo!


Agora o silêncio é meu.


Te abraço com carinho. rs.

Pipa. Agora eu era o herói. disse...

Em cheio Wilson, Tabacaria é meu poema preferido.


Quanto ao seu novo romance, desejo sorte, não sem antes oferecer-lhe uma lista de recomendações para que não perca sua identidade. Se o fizer, vai comprovar que estará perdido.

Tome cuidado Wilson, a paixão é a pólvora, e o desejo, o pavio.


Aos demais, deixo o meu carinho.

Long Haired Lady disse...

quem embriaga mais, o vinho ou o amor?

Keli Wolinger disse...

Não precisa de muito para reconquistá-la. Porém é imprescindível que ele se encontre. Tudo que já ofereceu e ele cego recuou, agora volta e assim como a rolha que suspira ele espera uma chance. Talvez a única para que possa demonstrar que além de doce, pode ser letal.

Abraços

Pipa. Agora eu era o herói. disse...

Long Haired Lady,


O vinho. Só que o efeito é temporário. Já no amor, costumam ser permanentes os danos causados.

Abraços, Pipa.

Roberta Mendes disse...

:)

(...hoje é tudo quanto deixo, à moda do sorriso do gato de Alice);-)

Cris Carvalho disse...

.

Hermana,

acho que ocê merece amor é de uma pessoa bonita e, por enquanto, ele me faz acreditar que ele não passa mesmo de um monstro!

Um recado pra esse monstro aí:

HONRE A SUA CUECA DE CHOCOLATE!

prontofalei!

Só quero é saber do final dessa história!

beijocas minhas*


.

Mulher Vã disse...

Nóooo!

Me reservo ao direito de não arguir nenhuma palavra. Diante de tão frias apostrofes lançadas diretamente ao meu singelo comentário. Antes que a politica da boa vizinhança me abandone, mando a seguinte mensagem: Vá te catar!

Anga Mazle disse...

Caramba, o clima aqui nos comentários está meio tenso, não? Ou será só uma guarnição surreal para acompanhar o tom do prato principal?

Bem, como me ative ao texto, sem considerá-lo uma confidência, não tenho conselhos a dar. Só agradecimento, pela delícia da leitura, Pipa.

Beijos