Header

Header

3.09.2011

If I Rise



Imagem: Deviantar't





Lá fora faz tanto barulho, mas quando pego minha caneta, o mundo silencia. Não sabia que mais cedo ou mais tarde, a brisa do passado sempre volta para nos acariciar o rosto, como se quisesse nos descobrir novamente num sopro. Aconteceu numa tarde, quando ela tinha se sentado para contemplar os últimos clarões do crepúsculo salpicarem as janelas do quarto. Limitou-se a balançar a cabeça, sem afastar o olhar do horizonte, como se aquela luz refletisse seus pensamentos, e, mesmo que límpidos, não a impediram de arder por dentro. Tudo que se afasta espera ser buscado, o que não significa que alguém vá fazer isso, mas ela fazia. O azul claro daquele dia se espalhou em suas retinas como se quisesse anestesiar-lhe a vista embrutecida. Fechou os olhos e sentiu as longas unhas do vento lhe arranharem a pele, como se acreditasse que com aquele gesto ele pudesse ter lhe aparecido sob a forma de um fio invisível, sem que nem ele próprio soubesse. Muitas vezes parei para pensar naquele milagre que se repetia todos os dias e que só sobrevivia graças aos cuidados obsessivos que ela tinha em não apagar os sinais de que haviam mesmo existido. Da última vez que conversaram, conjecturei se isso ainda seria possível. Nada disseram sobre todos aqueles dias de desperdícios, apenas se esforçaram para fingir que tinham se esquecido. Pode até ser que a brisa tenha demorado a chegar, mas quando o vento começou a soprar perceberam que não estavam sozinhos. Escutavam-se no silêncio. Tocavam-se de onde estavam. Quando abriram os olhos, já havia anoitecido. Por algum motivo que não conseguiram compreender, a lua voltou a se esconder entre as nuvens e quando se procuraram, a noite já os tinha encobrido. Suas sombras, como se apenas esperassem o céu escurecer para reuní-las, perderam-se placidamente no vazio, vendo crescer entre eles um desejo que de outro modo não poderiam ter conhecido. Perdidos na noite, cruzaram a cidade atrás de seus passos,  imaginando como seriam suas vidas se o destino não os tivesse separado. Perguntei-me se as cartas haviam mentido ou se disseram apenas o que podia ser revelado. Não encontraram nenhuma instrução para o jogo. Contudo, a sorte, decidiu contemplá-los. Era como traçar um diagrama com símbolos de um alfabeto mágico. A caneta girava em minhas mãos como num lance Grand Roulet. Só que desta vez, eles não tinham atirado os dados.



Pipa.

15 comentários:

Thalita Santos disse...

''Da última vez que conversaram, conjecturei se isso ainda seria possível. Nada disseram sobre todos aqueles dias de desperdícios, apenas se esforçaram para fingir que tinham se esquecido.''

Tão eu este texto Pipa. Me encanto cada vez mais ao ver na sua escrita fascinante relatos tão seus, que me lembram fatos da minha vida, que nem por mim poderiam ser tão descritos e encantados, e iluminados pela magia de tuas palavras.

Roberta Mendes disse...

O poliedro girava sobre o vértice no tabuleiro, brincando de ser pião. E era sobre a própria mão que jogava.

Do deslocamento rotatório do dado sobre sua palma ficou um rastro nítido, um trilho que outros dedos poderiam percorrer em segurança, mesmo no escuro. A mão chamava a linha de destino. O dado, que por um momento desfrutara da leveza de ser pião, chamava-a de liberdade.

WILSON disse...

Fiquei me pergutando quantos homens tinha matado com essas palavras. Pipa, juro que se algum dia eu me deparar com esse príncipe encantado, prometo esganá-lo.

E por falar em príncipes, pensei que não escrevesse mais contos de fadas. Mas é impossível que um texto como o de hoje não sensibilize até os homens de lata.

Deus - é impressionante a sua capacidade de fazer poesias com sucatas.

Wilson, seu amigo, o terceiro homem.

Pipa. Agora eu era o herói. disse...

Isso foi uma ameaça?

Wilson,

Antes que eu lhe meta um tiro na cara - desça pelas escadas.

Anônimo disse...

Segura Peão!

Essa garota!
Essa garota sabe bem...
Sim, ela sabe - sim, ela sabe.
Ora - meu caro! ela sabe -
pq não haveria ela de saber!?
E for ver mesmo -
todo mundo sabe q todo mundo sabe.

Viu sabido!?
Sabidinho! Sabidão!
Vai Sabido!
E sabido - vai sabendo/
Vc sabe - vc sabe!
Sacumé - sacumé!
Eu não quero nem saber/

Ê!
Depois nóis continua
(To Be Continued)
Inté mais vê!

Roberta Mendes disse...

Obrigada pelo café, mas não sei o que me deu que dormi, mesmo assim. Talvez a certeza da tua presença tenha me emprestado a serenidade dos bebês quando dormem, sabendo-se assistidos. Não espreitados, o que provocaria inquietação. Falo da assistência de anjos guardiães. Ou de mulheres como tu, dispostas a se submeterem, meticulosamente, à experiência do amor incondicional. O que dá no mesmo.

Descafeinado?
http://www.tremaliteratura.com/2011/02/ha-vacuos.html

Rafaelle Melo. disse...

Ah, Pipa! Sempre que venho aqui ver teus ares eu tenho que engolir novamente a intensidade de comungar tuas linhas.


"Perdidos na noite, cruzaram a cidade atrás de seus passos, imaginando como seriam suas vidas se o destino não os tivesse separado."


Com sorte ou não, se houver coração é sempre possível um novo lance, um novo girar de roleta e uma esperança de tirar da mão do destino o que deve estar em nossas mãos.

Te abraço.
Me abraças.



P.S.: O Carnaval acabou e a Quarta-Feira de cinzas já deixou as flores nascerem novamente. Espero nossa dança.

dansesurlamerde disse...

é por isso que uma das poucas coisas que ainda me fazem ter fé é a brisa.

beijo, moça que venta.

Janine Bettencourt disse...

Tem selinho no meu blog para ti ;)

Anônimo disse...

o pior de tudo é quem acaba
acreditando na própria mentira...
e quando se confrontarem com
a realidade,
o sofrimento vai ser grandeeeeee!

Cristiano Guerra disse...

Ou esquecemos ou perdoamos, não dá para fazer os dois. Perdoar é sempre lembrar e sempre aceitar."

(dum moço bem grande, o Carpinejar)

Long Haired Lady disse...

reflexões que sempre fazemos, erros que sempre repetimos.

Keli Wolinger disse...

Ao folhear estas páginas me perguntei por quê não atiraram os dados? Tu já havia sido exposto, os olhos não mentem nem mesmo as procuras. O que de fato impede é apenas o mero gesto de curva-se e entregar-se.
Fechei o livro. é melhor ler outra hora, por instante me deu sono e isso pode acarretar em sonhos.

Até mais, beijos de luz.

Nyna disse...

ola mtu lindo seu blog!
seguindo voce!
me segue tbm?
beijos!!!!
http://stilo-pink.blogspot.com

Patrícia disse...

"Tudo que se afasta espera ser buscado"
Será?

O começo do texto me envolveu tanto... vi paisagens e me vi em sentimentos!

Beijo