12.08.2010

Nevando no coração






Imagem: Deviantar't






Coloquei a caneta em riste na tentativa de por ordem aos pensamentos da casa mental e o papel engasgou na mais absoluta asfixia. Decidi enfrentar o dragão do apocalipse e comecei a lutar com as palavras. Tive um surto de imaginação e disse a mim mesma que se alguma coisa seria capaz de trazê-lo de volta,  seria aquela iniciativa. Sentia que a cabeça pesava e um sorriso hostil perpassava pelos lábios.  Tal qual um soro ao lado da cama, o pensamento começou a gotejar. Cinco minutos depois, que para mim foram cinquenta anos, tive um apagão na memória e mergulhei junto com a casa num mar de silêncio. Procurei conversar com os fósseis de  minhas dores e dúvidas, certa de que aquele futuro, eu  anteciparia, não para mudá-lo, mas antes, para suportá-lo. Os pensamentos mais ruins tentaram reagir, mas ficaram intimidados, como se alguém os  tivesse supreendido fazendo algo de errado. Guerrilharam, revidaram, acovardaram e por fim, não se renderam. Todavia, antes que eles se sentissem culpados pensei numa maneira de aliviá-los, com sorte conscientizá-los e, se isso fosse possível, inocentá-los. A verdade é que eu havia me entregado, e, na dúvida, decidi perdoá-los. Não consegui dormir até que a noite caiu como um punhal e a dor me arrancou o sono e a paz, deixando meus pensamentos ensanguentados. Não  pude distinguir se foi sonho ou pesadelo. Levantei-me como pude e desci até o breu de ruas que eu não conhecia. A estranha cidade estava com um hálito soturno de gueto. As fábricas fumavam como michês da madrugada junto com as pessoas. O horizonte estava espetado por milhares de agulhas de fumaça e, à certa altura, tal qual uma miragem a vapor, a neblina arrastava os pés e alma como se tentasse em vão, soprar a nevasca. As árvores se escondiam sob as calçadas escuras e os pássaros dormiam num ninho de ramos entrelaçados, embalados pelo vai e vem de uma angústia que se recusava a passar. O ronco sonâmbulo de um carro atravessou a avenida como um dragão aterrorizado, indicando aos passageiros sem rosto que o sono também lhe era necessário.  Quis sumir dali, mas não sabia onde estava. Ignorando os sapatos, apoiei os braços debaixo da marquise de uma banca de jornais sentindo o coração apertar contra o peito.  Senti que as lembranças me seguiam com a solenidade de um cortejo.Vi-me deitada sob uma cama de espelhos, enquanto uma garganta invisível deslizava pelas armações metálicas e engolia os rostos aprisionados nas fotos de revistas que descansavam sombrias atrás das vidraças.  Fiquei com o olhar perdido naquele paraíso de sombras e notícias passadas. Tive a sensação de que um vulto escuro pairava às minhas costas. Era a memória. Pensei nos destinos descruzados e chorei quando as palavras congelaram em meus lábios. Era tanta solidão, que a ausência parecia vibrar em meus olhos. Fechei-os. Amanhecia o dia trinta e um de dezembro. Meu aniversário. Ele não veio. Estava nevando no coração. Soube então para quem eu havia escrito todas aquelas histórias: para mim mesma.




Pipa.

14 comentários:

z i r i s disse...

Na roda-gigante, a roda da fortuna, embaixo novamente, a mercê da malícia de um homenzinho de boné que dirige a máquina e esconde de tempos em tempos a panorâmica das perspectivas mais longilíneas...


Fechemos os olhos prima, pra iludir um tanto essa tontura.

Te abraço com carinho!

Anônimo disse...

Desculpe, lágrimas....muitas lágrimas...Isso não acontecia há muitos anos. Não tenho endereço eletrônico, nem página virtual, já sou muito idoso, estava procurando por uma imagem de frio e caí no seu céu. Gostaria de me apresentar Meu nome é Valderic Santana, tenho setenta e três anos e sou ex combatente de causas de duvidosa honra historiográfica, sou brasileiro e atualmente vivo em Portugal na periferia da cidade de Évora. Meu pai escrevia. Estava ainda agora passando as mãos pelos seus cadernos amarelecidos pelo tempo e apertando a foto dele contra o peito. Minha mãe morreu cedo. Desde então ele nunca mais quis se juntar a ninguém. O grande drama de existir é que não passamos de uma lista à espera de que a grande verdade da vida apareça por mágica. No e se eu tivesse tentado, e se eu tivesse lutado, e se eu tivesse ganhado, ficamos sempre paralisado diante das grandes coisas e obras que poderíamos realizar em nossas vidas. O que a juventude se esquece é que o dia de hoje não é passado, tens nas mãos o poder de dizer a todas as dores e problemas quem manda em quem. Li o texto abaixo e fiquei ainda mais emocionado. Li um comentário que se referia a questões de idosos, não estou magoado não se preocupe. Apenas quero dizer que está errada sobre ficar velho e não acreditar em mais nada. A medida que a gente envelhece acredita ainda mais em bobagens, e no geral, cada vez piores. Queria dizer que hoje fez alguém feliz. Hoje fez alguém derramar lágrimas com suas palavras. Por muito tempo fiquei endurecido e não imaginaria ver mais nada nessa vida que fosse capaz de conseguir isso. Nem aqueles corpos fuzilados caídos sobre os telhados conseguiram isso. Como você eu lutei sabe. Lutei muito. Lutei com palavras, lutei com pessoas e venci pelo cansaço. Casei com o amor de minha vida e tive uma filha. Me deram seis netos. Esse texto lembrou minha amada, que hoje descansa junto a meu pai e minha mãe, e o quanto eu sofri num de meus aniversários quando, por um motivo besta brigamos. Naquele tempo se fazia seresta, lembro da flor vermelha que joguei na janela do seu quarto. E lembro principalmente de como o seu olhar ficou embriagado. Lendo seu texto, voltei naqueles anos, e naquele rosto que só existe neste retrato que devolvi ainda agora ao criado mudo. Menina, mulher, senhorita, senhora, não sei que tempo tem o teu rosto, mas posso dizer com certeza que encontrastes a forma mais bonita de ganhar um amor. Começou pela alma.



Encantado,
Valderic Santana
Évora Portugal - 08-12-Ano de 2010

H. Machado disse...

Tive uma viagem na mesma linha de seus devaneios, ontem no entardecer, olhando para o que havia la fora da janela do meu andar.
Hoje me deparo com um texto seu, falando do mesmo jeito que eu. Pega aqui essa caneta, pra voar pra onde quiseres. Vai, Pipa.

Menina no Sotão disse...

A manhã rompeu com meus vacilos e eu fiquei diante do silêncio dos meus passos. No som a mesma música de antes como se tivesse tudo sido combinado. Então mergulhei no seu infinito e me perdi entre resquícios de sorrisos, delírios de beijos, abraços, enroscos. A neve chegou mais cedo no meu telhado e do lado de fora está o mundo inteiro, menos eu...

Gislãne Gonçalves disse...

as vezes é apenas para nós que escrevemos. Egoísmo?1 Talvez não!

:)

Beijos

Alvaro Vianna disse...

Seu texto evolui a olhos vistos. E junto com ele o blog e o alcance de suas frases absurdamente incomuns. Emociona-me imaginar o tanto que a evolução caminhou para gerar essa capacidade de abstrair, de imaginar e de antecipar.

Beijo, minha querida!

Márcio Vandré disse...

Eu gosto dos meus cotejos com o papel e a caneta!
Infelizmente, alguém tem sempre de sair ferido...
Um beijo, Pipa!

Roberta Mendes disse...

A leitura de seu texto tirou esse meu da gaveta, que por anos espera conclusão:

Dos anos que vivi no estrangeiro, o que mais guardei da neve foi o seu poder de silêncio. Não foi as demãos perfeitas de branco sobre o desenho da paisagem, nem a graça da precipitação, paradoxalmente coagulada e flutuante. Não é também que houvesse imobilidade nas ruas. É que, na neve, os passos são absorvidos pela tecnologia amortecedora dos flocos, que os fabricantes de tênis em vão tentam reproduzir. A neve para mim, portanto, era uma forma nova de aconchego. O frio me incomodava, a princípio. Mas só até eu aprender que também queimava, como o calor excessivo, como a própria ideia de excesso.

ErikaH Azzevedo disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
ErikaH Azzevedo disse...

Não ganhaste ele como presente, não foi a presença dele, mas o carinho dos teus amigos aqui acho que te abraçou tão forte que quebrou todos os seus ossinhos, já tava emocionada e me emocionou mais ainda o comentário do sr Valderic...coisa mais linda isso.

Tuas prosas sempre poemeiam com meu olhar, doam brilho, fazem-no pulsar...e eu sei, isso não acontece só comigo.

Tu és tranplanta de belezas Pipa, tudo em ti parece sempre mais bonito, até a tristeza...magia das tuas letras.

Adoro-te ler, adoro-te ver escrevendo.
Sempre fã.

Erikah

Janine Bettencourt disse...

Esse vulto na escuridão: a memória... esta imagem atormenta-me, sério. Admiro a tua forma de expressar sentimentos, como se para as tuas palavras não houvesse limites.

Força Pipa, escreves com a alma...
Beijo,
Jana

Willyan Luemi disse...

Peço desculpas pelo meu silencio.
Diversas vezes, quis dizer coisas a ti, mas não achei que poderia ser útil de alguma maneira em seus momentos de tristeza. A sua tristeza era tão linda e pura, que percebi que ela seria a sua melhor professora e amiga. Mas olhei por ti, como um pai, um avô, um marido, um ser humano que observa a pessoa amada durante uma noite fria. me és muito querida! muito!

Estou no meio de uma viagem na chapada diamantina. Assim que voltar, gostaria de ter o seu endereço, para enviar-lhe uma carta.

Um grande abraço ma sua alma!

WILSON disse...

Recuso-me a comentar este texto depois do que disse esse tal Willyan!


A propósito, não vou deixar me levar pelo ciúme. Esqueça. Este texto é um blefe!

WILSON disse...

Passei batido, quem é Valderic? Algum coveiro de cemitério tentando dizer que ainda tem energia?

Agora sim balancei a cabeça.

E também os sentidos.