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11.08.2010

O Homem da Névoa










Arte: © Agócs Írisz









Em minha vida, as possibilidades, grandes ou pequenas, raramente encontraram seu amanhecer. De algum modo, me sentia como um livro esquecido, à espera de algum olhar delicado que limpasse com lágrimas o sangue e as feridas. Quando pensei que minhas tristezas nunca morreriam e nada mais pudesse destruí-las, pareceu-me que meus dedos se entreabriam. Decidi dar vida à caneta,  e fiquei à espera de que ela me contasse seus segredos. Senti que uma nova história avançava em minha direção. Foi então que a enigmática caneta se levantou da escrivaninha  e parou entre meus dedos para que eu a apreciasse.   Fale de suas primeiras impressões, convidei. Uma parte de mim desejava perder-se naquela rara intimidade com aquele desconhecido, cujas mãos me emparedavam como se tencionasse apertar o gatilho. A outra parte pedia para ir embora, como se estivesse fugindo. Um olhar terno que me prometia mostrar uma parte do mundo, que até aquele momento eu nunca tinha visto. Senti coragem para tocá-lo, em meio aquela espécie de esconderijo labiríntico, que eram seu mundo secreto e seu refúgio.  Ele lançou-me um olhar inquisitivo como se temesse arrancar minhas vestes e encontrasse um corpo ferido. Importa se pararmos por aqui? - objetei. Ele me sorriu com tristeza, mas compreendeu que eu precisava ficar sozinha. A caminho de casa, comecei a resumir o que pensava estar sentindo. O toque daquelas mãos experientes anestesiava minhas dores, como se fosse possível deixar para trás todas as memórias que até ali haviam me perseguido.  Aquelas mãos tinham um calor afetuoso, talvez inquietas, mas nunca frívolas. Não podia crer em minha própria derrota, acreditar na vitória? Quem diria...Um emaranhado de sensações que tive de me esforçar para escondê-las, e logo me perguntei o que eu fazia ali  com alguém que eu mal conhecia. Afastei-me lentamente empurrando-me de volta à neblina que cobria as ruas, como se tentasse buscar naquela névoa um jeito de me encontrar com a paz, que ao lado daquele estranho, se esvaía.  Mergulhei num silêncio interminável, e, a cada passo podia sentir o vazio que inundava as casas  daquele antigo céu. No de sentir só. O silêncio fez um sinal para que eu me juntasse a ele. Assenti. A porta se fechou atrás de nós, enterrando-nos na escuridão. Ficamos quietos ali. Eu e o silêncio, estiletando o vazio. Olhamo-nos longamente ruminando nossas inquietações. Apaguei as luzes e detive-me na penumbra, enquanto um lamento de Réquiem deslizava pelas paredes do rádio. Aproximei-me devagar e rodeei a janela. O vento tremia. Fechei os olhos amaldiçoando-me por levar uma existência suspensa, tal qual uma marionete pendurada nos fios, manipulada por imponentes cordéis que ao menor movimento, tomava vida num pequeno palco e mundo de nostalgias.  Suspirei em minha cama, abalada pela bebida e pela certeza de aquele homem da névoa voltaria.  A lembrança de seu beijo me ardia. Fiquei de frente para o fogo vendo as chamas do desejo rugirem. Senti que o fogo se espalhava e a caneta se contorcia. Ela deixou a história pelo meio, como se receasse terminá-la, mas  não tivesse a menor ideia de como o faria. A fumaça, indiferente, levou-a embora. Instantes depois, meus dedos ficaram cobertos de cinzas.




Pipa.

7 comentários:

Alvaro Vianna disse...

Um texto pleno. Mesmo assim o imagino com parte de uma obra de maior porte. Sinto uma maturidade estilística associada a um amplo vigor imaginativo.
Deleite que desejaria prolongado.

Um grande beijo, moça escritora!

Márcio Vandré disse...

Pipa, uma coisa que descobri é que o silêncio também pode nos fazer sorrir. Mas por via das dúvidas, olha cá um gracejo de um palhaço!
Um beijo!

Mulher Vã disse...

O inicio é de tirar o folego, a ideia de dar vida à caneta e conversar com ela, arrepiante, adorei.
Tambem me extasia, a sua metalinguagem. "silêncio fez um sinal para que eu me juntasse a ele".

Muito bom. Embora triste de doer.

Um beijo

Serena-Cris disse...

Ouviu os sininhos? Creio que não!Então não era ele! rs


Te benzo/ Me benzes


=)

Cris R. disse...

é o milagre do amor que está querendo reinar em seu coração de novo.

Amém.

Sara disse...

Estou sim!

Pipa, existem cinzas que o vento nunca poderá soprar...oxalá elas mesmas voem para o ar....

A Pipa me encanta até no desencanto.

Um abraço leve, como algodão doce.

Anônimo disse...

Alguém aí falou em sinos!?
BEN-BEN-BEN!!!
Mas isto aí foi só a música "Tres Apitos"(Não percam! Sensacional) de Noel Rosa.
Dizer mais o q?
Indio quer apito - se não der pau vai comer.
BEN-BEN-BEN!!!
Agora foi "Hells Bells" do AC/DC nesta q é uma polifonia-monocromática.Ou será estática? Poderia ser uma intermitência orgasmática, mas, deve estar mesmo é para falência múltipla.
Mas, pensemos positivo.
Antônio Bier-Lauck (Breve-nas bancas)
Até mais vê!