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11.17.2010

Confissões de uma estrela








Arte: © Agócs Írisz





"Não cortaremos os pulsos, ao contrário,

costuraremos com linha dupla

todas as feridas abertas."





Lygia Fagundes




"Cara Amiga Pipa, por aqui, a magia também acabou. Decolei no dia a dia, e nele finquei pés, alma e algum coração. Não aquele coração de outros dias, de múltiplos inícios, de capacidades perceptivas instigantes, de força e paixão que me acendiam para cada minuto como se de fato cada minuto guardasse em seus braços de vento uma espécie de milagre. Ou paralelo de vida. Meu coração vivia em uma esfera imensamente borbulhante de novidades, e todas elas, todas essas novidades giravam e versavam em torno de um ser único e multiplicado, que me fez viajar muito mais léguas submarinas que eu imaginei navegar. Voei entre estrelas com ele, visitei seres sem rosto que só ele conhecia, recebi todo tipo de atenção, menos a mais fundamental para meu ser trivial que seria a atenção trivial de todo dia. Desci da nave, pulei do jipe, perdi a capacidade de me deslumbrar com todo aquele amor ódio fascinação e luxúria que me foi oferecido em doses diárias que não decifrei ainda se tratou-se de elixir ou veneno. Veneno desses lentos, sabe? Que não matam nem dilaceram subitamente mas que, destroem a essência. Um elixir? Pode ser uma mistura disso com aquilo pois, da mesma forma que padecia, ressurgia com renovadas vontades e urgências e vitalidade para novos e novos encontros com o meu ser paralelo. Sinto saudade. Uma saudade de algo muito muito distante. Tudo que vivi não parece que foi vivido de fato. Foi só uma criação de uma mente sem descanso. Quando acabou a magia? Da mesmo forma como começou. Do nada. Um belo dia, ou melhor, num não tão belo dia acordei eu mesma, desacrescida dele. Foi confortável. É mais fácil respirar agora, só que o ar não tem mais aquele aroma inebriante de um ser que lugar algum mais, jamais, me apresentará novamente. Se eu penso que o término da magia é absoluto? Penso que sim. Não deve ser permitido aos seres viventes viver mais que uma coisa desse tipo por vida embora, no mais íntimo do meu íntimo, lá onde só vislumbro sombras aja uma fagulha que não apaga. É verde meio azul. Sabe, né?aquela cor presente e permanente na vida daqueles que nasceram dados a esperanças e ilusões. Um certo dom que nunca acaba. Um abraço da sua amiga, Bê. "

Carta cedida gentilmente pela Capitã dos Astros:  Estrela Bê Lins.




Querida Bê,



Só tem uma coisa que ganha da Pipa em matéria de persistência: a fome. A coisa não está tão preta como se pinta.  Estava rascunhando algumas teorias sobre os poderes da inércia, quando vi a tal luz verde e meu cérebro voltou do apagão. Tal qual uma panela de pressão, minha cabeça fervia. A medida que o vapor subia, sentia que o suor de meus miolos escorria pela face em múltiplos graus de temperatura. Minha escrivanhia acabou fritando meu cérebro e não fui capaz de redigir uma linha para reconfortá-la. Suas palavras chegaram até mim encapuzadas, com dois revólveres na mão e me assaltaram sem deixar nenhum trocado para o ônibus. Por descobrir como é difícil continuar a vida, quando a parte dela que nos interessa a viver, deixa de existir. Um dado interessante é que todos os textos de apelo afetivo, são feitos com sangue, mas guardam uma extraordinária semelhança entre si. A tinta da esperança. Esta não seca, por mais manchado que esteja o discurso. A caneta falha, ou seja, não mente mas também não conta tudo. Perceba: "no mais íntimo do meu íntimo, lá onde só vislumbro sombras aja uma fagulha que não apaga." Sensibilizou-me sobremaneira ver tantas verdades refletidas nestas linhas, especialmente num dia em que estava exausta, e não havia uma só parte do meu corpo que não doía. Graças a minha minguada sorte, as doenças de amor quando me visitam se arrependem, e logo partem em busca de alguém que ao menos, consiga andar sozinho. Como estamos de muletas, não corremos esse risco. E por falar em magia, o que queria ser quando criança, Bê? Eu queria ser Tocadora de Bonde. Só para deixar os "passageiros" pelo caminho. Trouxe um charuto caribenho para fumarmos juntas. Imaginei que se injetássemos nas veias um pouco de fumaça e umas seis doses de cafeína, conseguiríamos envenenar nossos pulmões e fazer com que eles convencessem nossos corações a morrer outro dia e, se isso fosse possível, continuar acreditando, só para complicar um pouco mais as nossas vidas.



Um abraço interminável da Pipa.

9 comentários:

B. disse...

Não sei por que mas assim que terminei de ler este texto me veio em mente uma música :

- e eu te pergunto, o que será de nosso amor? ♫

O que será menina pipa?

te afago e vou chegando sem avisar.

paz.

Iara disse...

Você me encanta Pipa, suas palavras me soam tão doces que é preciso ter cuidado, posso viciar em você!
Adoro tanto esse blog que as vezes durmo pensando nele! bjs no coração

Iara disse...

Você me encanta Pipa, suas palavras me soam tão doces que é preciso ter cuidado, posso viciar em você!
Adoro tanto esse blog que as vezes durmo pensando nele! bjs no coração

Be Lins disse...

Aceito os charutos,
os intermináveis café e as complicações.
Sabe por que?
Não tem graça tudo certinho, e arrumadinho demais. Além de ser dada ás esperanças, creio que sou dada às instabilidades das histórias um pouco mais intensas do amor.

Muito grata por responder, Pipa,
fiquei um bocado envaidecida com a citação da carta aqui nesse seu espaço tão intenso.

Um beijo e um abraço
da sua amiga que te quer muito bem.

Be

Be Lins disse...

...a propósito,
quando criança eu não queria ser nada, nao lembro de nada em especial que não fossem livros e bonecas e historinhas de príncipes e princesas buscando entre muita confusão, um grande momento feliz.

*

Pipa. Agora eu era o herói. disse...

Bê querida,

Não queria ser nada?
Hum...

Então vou direcionar a você a mesma frase que Carpinejar me escreveu quando envenenei um de seus tantos discursos: "A maior ambição, é tentar ser ninguém."

Já sei o que queria ser, Bê. Queria ser Deus. rs


Não ouvi contos da carochinha quando criança. Tenho pais analfabetos. Algumas vezes escutava o seu choro baixinho diante das cartilhas. Disse a mamãe que não se preocupasse, que quando crescesse escreveria os meus.

Shuzy disse...

É sempre tão bonito o que leio aqui... Me toca e faz matutar mil coisinhas... Sabe, muitas vezes continuar acreditando é, mesmo, continuar complicando... Mas, qual a graça de uma vida simples?

Be Lins disse...

Pode ser, Pipa,
mas o mundo estaria perdido se eu fosse Deus, porque sou egoísta e iria ficar voando por minhas maravilhas e o mundo estaria "ao Deus dará".

Falando em dons divinos, desde criança você já sabia que tuas palavras teriam mais que vida.


Beijo.

placco araujo disse...

Do nada. Um belo dia, ou melhor, num não tão belo dia acordei eu mesma, desacrescida dele

BÊ (desculpe a intimidade que não tenho!!!)... adorei este seu insight, ou melhor, este estalo emocional... acho que às vezes, assim como vêm, se vão, deixando apenas uma sensação. Nada real, nada palpável...apenas uma sensação... a mesma que temos às vezes, ao acordar de um sonho ou pesadelo, mas que não conseguimos nos lembrar dele!!!

Beijos às duas, que estou aprendendo a gostar...