"SANGRIA"
"Existe prótese para uma alma amputada? Perguntava-se a mulher prendendo os cabelos na touca branca. Depois colocou o crucifixo prateado em volta do pescoço. Brincou de se enforcar, em frente ao espelho, deixando pender a cabeça para o lado esquerdo, com a língua para fora, pingando um resto de saliva que esquecera de engolir, desacostumada que estava de engolir tantas outras coisas mais. Deixou o banheiro do metrô e imediatamente o mundo passou a responder-lhe com os olhos doces que se dirigem às freiras. Tinha vontade de agradecer de joelhos, como as freiras fazem quando falam com Cristo, por cada um desses olhares que a redimia de toda a sujeira que tivera de viver por ter nascido mulher. Depois de tantos anos usando hábito de vez em quando, para se limpar de um passado pungente, que não se apagara, aumentou vertiginosamente suas doses de purificação. Todos os meses, quinzenas, semanas, e quanto mais se fantasiava de freira para recuperar uma castidade violada pela fé, mais descrente ficava em relação à sua cura. Existe prótese para uma alma amputada? Perturbava-lhe a pergunta sem resposta que ressoava em sua mente. Quantas outras violações podem, aqueles que detém o poder, praticar impunemente? Vingança? Perdão? Suas motivações vagavam num trem de condutor ausente. Olhares de redenção não salvam, não fecham feridas, só aumentam a saudade de uma vida que não foi, que não é, que não será. E ela só queria ser: grande. Andou pela cidade com expressão serena e pacífica, metida no hábito de freira, para mascarar seus fantasmas, mas esqueceu-se que o exorcismo caiu em desuso. Ninguém quer carregar o demônio alheio. Exorcismo foi o que ela pensou que o padre estivesse fazendo com ela, quando montou-lhe feito amansador de cavalo xucro, naquele verão fresco de infância. Descobriu que ele não havia levado demônio nenhum embora, mas plantado nela muitos bichos que a carcomiam por dentro. O primeiro deles, a vergonha de abrigar uma mulher num corpo ainda de menina. Os anos passaram, os bichos dentro dela, e o hábito de usar um hábito não secaram as feridas abertas, só faziam sangrar mais. Na cidade, chovia."
Pintura: O cardeal e a freira, Egon Schiele 1890 - 1918 (óleo sobre tela, 1912).
Pelas mãos do cometa Ana Karina Bucciarelli
Escutando os últimos trechos do relato de Ana Karina e sem dizer uma palavra, levantei da cadeira e a abracei com força, como um livro aberto, desses que contam tudo sobre nossas vidas. Esmaguei as entrelinhas. As palavras gotejaram no papel. E pingo a pingo, formaram um rio de tinta.
Pipa. A que.

6 comentários:
Ah, Pipa, o O N Z E P A L A V R A S é minha sonda parenteral, alimento que me cai diretamente na corrente sangüínea. Ali eu me nutro das palavras e da amiga de tantos anos. Onze, por sinal, os anos. A escrita me revelou tanto dela, quanto a própria expressividade de seus olhos. Ambos sabem dizer, sem roubar ao silência sua dimensão de mistério.
Ana querida,
Te encontrei num secreto calendário dedicado ao vento. Como você só usava preto, demorei a entender que as manchas do seu vestido de algodão eram de sangue. Que marcas são estas Ana? Cortes? Como me doem estes teus silêncios.
Te abraço com respeito.
Magnífico, Pipa.
A escrita de Ana é tão parecida com a tua.
Sabe, a alma é tão difícil ser curada, mas eu creio que ela pode se regenerar, talvez num mergulho profundo não se sabe onde. talvez a solução seja estar sempre cercado de coisas que alimentem a alma, devemos a estimular mesmo que ela não queira.
'nutre a luz'
Te beijo com carinho. te saro.
PS: Amo Schiele.
Pipa, Leo e Minha Betinha,
Sobre as sombras, elas refrescam do calor, mas vêm junto com a escuridão. Elas escondem e revelam. Abrem e curam feridas. Elas são duplas, como duplo é o nosso íntimo, esse labirinto fantástico que pode levar à loucura quem por ele se arriscar a caminhar.
Pode haver sombra, mas não haverá medo. E sempre haverá luz, mesmo que atrás do véu.
Hoje Betinha me escreveu assim pelo celular: Acende o abajur sobre o mistério. A luz, mesmo suave, cria nuances, sem sequer aniquilar as sombras.
E essa mensagem é um livro inteiro, com final feliz!
Beijo Pipa. E muito obrigada por divulgar o texto aqui. Quem sabe eu não descubra que algumas dessas manchas no vestido são de morangos (não os mofados, mas tão belos quanto os do Caio).
Amor, Ana
Meu Deus
Quantos corações partidos. E eu sonhando com a ninfa da vez, sozinho, cercado por um vinho barato e um charuto que promete mais solidez do que franco suíço.
De tudo que já li por aqui esse texto foi o que mais ardeu. Estonteante a caneta desta moça. Vou ali tomar uma garrafa de lixívia e já volto.
Vou deixá-las à sós para falarem de suas coisas,quando tiverem acabado, você sabe onde me encontrar.
Wilson, seu amigo, o terceiro homem.
Nossa, muito bom!
Vou lá devorar as entrelinhas tb!!!
BJks =*
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