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10.22.2010

Me abrace. Não posso.








Arte: © Agócs Írisz






"Acorda, vem ver a lua que dorme na noite escura

que surge tão bela e branca

derramando doçura

clara chama silente

ardendo meu

sonhar."












Tinha dezessete anos e nenhuma promessa nos lábios. Como aconteceu? Foi assaltado por uma pinçada de fuzil no ouvido esquerdo e caiu de joelhos levando as mãos sobre a cabeça ensanguentada. Drogas? Acho que era crack. Como você sabe? Por causa do cheiro de fritura de ópio que vinha de seus miolos.  Morreu na mesma hora? Vi seu sorriso se iluminar com a glória de um espírito que se liberta da carne. E o que mais? Seus olhos rapidamente tomaram um rumo obscuro, e, abertos - foram esquecidos nos meus. O que disse a ele? Acorda. Ele respondeu? Não naquela hora.  E depois? Os gritos de sua mãe caíram como fios de navalhas desbastando meus dedos e braços. E do que mais se lembra? Do que ele me disse. Pode nos contar? "Acaso já viu um pássaro vermelho voando sobre a neve?" Aquele homem parou os olhos no infinito por mais tempo que gostaria. Suas lágrimas endureceram para segundos depois se estilhaçarem, e, rasgando-lhe os olhos, caíram como sangue derramado.  E antes que eu perguntasse o que ele sentiu - ele respondeu que não sabia. Ignorou todos os vultos ao seu redor e se arrastou com desespero até o quarto. A porta estava entreaberta. Hesitou um instante, e, antes que  levasse as mãos até a fechadura, um silvo agateado de boas-vindas entrou pelo orifício e lambeu seus dedos. E num mio rouco, o dente metálico da porta rangeu. Tive a impressão de que seu coração havia parado de bater, mas foi só o recuo das batidas se preparando para um soco mortal, e, quando arrombaram seu peito, a porta cedeu.  Aproximou-se da janela e, ao afastar as cortinas, viu que não estava nevando. Constatou com horror que não foi ali que seu filho morreu. Ele já havia começado a morrer antes. Quando as  folhas daquela macieira caíram, há cinco invernos atrás.





Pipa. A que.

7 comentários:

Winny Trindade disse...

Senti um aperto por dentro, uma melancolia... Profundo demais, para alguém como eu.

Abraço meu, doce Pipa.

Rafaelle Melo. disse...

Doído, fortemente doído!

Eu estava tentando alçar vôo e vc me vem com uma dessas, Pipa?!

Obriguei-me a parar um pouco e te ler. Hoje, confidencio-lhe que desejava algo mais leve, mas quando se admira é preciso reconhecer, mesmo que sangrando.

E eu te admiro, cara Pipa!
Te admiro com lágrimas nos olhos!

Ah, e se quiser um pouco de luz ai, minha janela ainda está aberta!

Te abraço.
Me abraças.

Amanda Arrais disse...

Maria Bethânia indubitavalmente sábia.. Sempre.

"Constatei com horror que não foi ali que ele morreu. Ele já havia começado a morrer antes."

Essa foi a parte que mais me tocou por ser essa também a morte que mais me toca. Morrer aos poucos deve doer mais que tudo, a lentidão machuca sem piedade.
Lindo o texto.

=*

Márcio Vandré disse...

A morte vem, Pipa. Nós a medida que andamos, morremos. Os pedaços de pele não vão ficar no caminho. Eles voarão e adubarão outros cantões. Um beijo!

Sabiana M. disse...

Eis o espetáculo da vida!
Cíclica, dúbia... riso e choro, vida e morte!

WILSON disse...

Sinto muito por ser um cenário do qual Vossa Senhoria faça parte. Acompanho sua luta e desespero para ajudar este menino.


A analogia de fruto proibido foi incrível, interessante, acho que quase ninguém percebeu isso.


Provou do fruto proibido e agora vai morrer envenenado. Macieira. Foi demais isso


Será por bel prazer?

Não. Não sejamos cínicos. Nós dois sabemos que é por descaso.


Tenho um outro ponto de vista sobre isso.

Será que foi quando o pai o fez e o abandonou na barriga da mãe aos quatorze anos? também pode ser um ponto de reflexão para o texto.


O final foi comovente


Parabéns, hj e sempre.



Wilson, seu amigo o terceiro homem.

Elen Abreu disse...

Muito bom o texto =)
Tb senti um aperto no peito,bem profundo!
Me comoveu (:

boa noite