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10.21.2010

Eu não queria vê-los tristes








Arte: © Agócs Írisz







Alguns escrevem para lembrar. Outros escrevem para esquecer. A alma é o único edifício à prova do tempo. Há tantas rachaduras na minha. Ainda bem que as piores ficam por dentro. Muitas vezes parei para pensar  em qual seria o momento. Nunca obtive resposta. Dia após dia eu buscava nas folhas em branco um jeito de encontrar a vida com qual eu havia sonhado. Quando começava a achar que minhas fantasias haviam me esquecido, eu mergulhava num quadro sem molduras, acariciando um amor com quem nunca iria me encontrar, rogando a ele que fizesse nascer um mundo com mais fundos que formas. Cheguei a me imaginar como uma daquelas mulheres, carregando um filho nos braços e mostrando a ele a casa onde eu havia crescido. Fitava seu rosto em  silêncio, deitada numa rede que balançava ao vento  com uma paisagem aveludada, encadeada entre as cortinas de mato, escutando com os dois, as irreverências do rádio. Há tantas coisas que eu queria ter dito. Não imaginam a pilha de sorrisos atrasados  que guardei,  para lhes entregar nos dias frios, quando a neve começasse a cair e  embaçasse as janelas. Eu não queria vê-los tristes. Castigados pela fome, pela sede ou pela  solidão. Talvez hoje, eu possa contar como. Como eu queria parar no olho mágico da porta só  para  espiá-los chegar. Como eu queria que encontrassem a mesa posta e saboreassem a comida como um tornado que se levanta e volta arrependido no meio da noite para devorar as sobras. Como  eu queria que fizessem desse terreno baldio da vida um quintal de esperanças que nos levassem para longe e nos colocassem à salvos de tudo o que pudesse nos machucar. Como eu queria que não perdessem a fé nas pessoas, mas também não confiassem muito nelas. Como eu queria que não tivessem pressa, mas também não andassem muito devagar. Como eu queria que não se vingassem dos que conseguiram amar, nem dos que aprenderam a odiar.  Como eu queria que. Como eu queria. Ontem o sol se apagou e até agora não acendeu.  Encontro apenas pistas falsas de um mundo de silêncios e sombras, no qual ninguém além de mim existiu. Saio pela ponta dos pés de um quadro feliz que não pude terminar em vida, por não saber onde estavam as tintas. Espero que possam me perdoar, algum dia. Às vezes me ocorre se não seríamos  uma  pintura de luz, entregue ao justiceiro do tempo, com direito à epitáfios e arranhões de insetos. A maioria de nós tem a tristeza ou a alegria de ver como nossas vidas vão se construindo para depois se desmoronarem aos poucos. Até que viremos um manto de cinzas e as volutas da poeira se debruem sobre algum outro teto que não iremos morar. Por puro capricho estético.




Pipa In.: A Sunday Smile.

14 comentários:

H. Machado disse...

Diferente, você sabe, né?

Keli Wolinger disse...

Seriamos só silêncio e tempestade.Duas faces da mesma moeda.
Tão necessário primeiro morrer, somente para depois renascer.
Inconstante e atemporal.

Abraços, Keli

WILSON disse...

Lídia,


Eu não queria vê-la triste.

Especialmente por este Monstro de Chocolate com a cabeça de mármore de um rei iraniano e possivelmente, ciro.


Chega de céus incendiados e chocolates derretidos!

Chega desse aparente esquecimento que ele tem te condenado!


Chega de desenhar aurélas na cabeça anjos, quando sabe que são diabos!

E chega de se comportar como uma guerreira celestial oculta lançando flechas afiadas.


Chega de querer matar todo mundo com esses textos desgraçados.


Chorei cara, chorei.
Vá chamar chuva na outra parte, seu sabiá de pio gago!

Ah para owww. Que já tou ficando desacreditado. rsrsrsrs




Wilson, seu amigo, o terceiro homem.

Pipa. Agora eu era o herói. disse...

Wilson:

Qual é seu problema?

Por que não fecha essa porta descascada do umbral, e pára de ficar evocando espíritos malígnos?


Está vendo aquele clarão sobre as águas?


É Deus te convidando a um mergulho profundo, para evitar que peque pela superficialidade e pela torpeza de suas conjecturas.



Boa viagem.

Sara disse...

Estamos todos demoronando aos poucos em direção a maior certeza de todas...a diferença é que uns deixam pedaços bonitos espalhados a disfarçar os erros...bjs

manuel aldeias disse...

Gostei do que li.
escrito com energia, mas ao mesmo tempo sublime.
Manuel Aldeias

Franck disse...

Qdo venho aqui, saio com lágrimas nos olhos, com tanta sensibilidade!
Bjs*

*Amanda* disse...

Sinceramente... de tudo o que já li aqui... essas são as palavras em que pude encontrar a maior dose de sentimento, sensibilidade e amor!

^^

bjs*

Ju Fuzetto disse...

"A maioria de nós tem a tristeza ou a alegria de ver como nossas vidas vão se construindo para depois se desmoronarem aos poucos."

E tudo vai indo de acordo com a alma, se tudo fica bem ela brilha, senão fica oca!

Um beijo Pipa

♥ Luciana Mira ♥ disse...

lindo

Maria Fernanda Probst disse...

Eis a desgraça das expectativas: quando não sai como queríamos, por mais bonito que seja, por mais feliz que possa vir a ser, a gente se fecha e se nega, feito criança emburrada porquê queria a pipa azul e ganhou a amarela. Vê? A brincadeira continuaria sendo a mesma...


Beijo

Gislãne disse...

"Alguns escrevem para lembrar. Outros escrevem para esquecer."

Eu escrevo por esse e outros motivos.

Winny Trindade disse...

Que bom que a Pipa voltou! *-*

Pérola Anjos disse...

O desmoronamento de uma casa construída com alicerce alheio não pode se tornar tão sólido, é preciso que o alicerce tenha muito mais de nós.

Faça novas construções!

E que sejam belas e sólidas e com espaços para as crianças brincarem e serem felizes de verdade.

Beijos!