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10.26.2010

Dialogando com os astros









POEMA: "IN VITRO"







"Como se foco exigisse cegueira, interrompi o giro no meio para olhar fixamente para um único lugar-horizonte, determinada a gerar. Desenganada do verbo que me dá timbre à solidão, ambicionava a carne, o filho. Eu, que nunca gostei de vestir esperanças, pela textura da ânsia ─ que é seu avesso. E como pinica! Pus-me a consultar as entranhas com a atenção com que, quando pequena, observava o algodão úmido para tentar capturar o feijão em seu movimento de coisa se formando no experimento escolar. Nunca aprendi a lição: a vida sempre acontece quando estamos distraídos. Não gosta de ser flagrada em sua toalete de rosa desabrochada. Nunca desabrochando. Desconfio de que não há gerúndios na natureza e, sim, sucessivos presentes. Agora, ainda não é. Agora, já está. Com a destreza da capa do mágico, talvez só se nos revele o que lá sempre esteve, oculto em mistério e bastidor de ser. Em mim não vingaram os feijões. Chorei coágulos grossos de sangue pelas pernas. Sobrou-me o pires de restos ─ algodões molhados, dois grãos herméticos, sem brechas pra vida. Toda a pobreza em mim é este pires que suplica o milagre do broto, esta louça rasa com pretensão a jarro com que sonho raízes. Recolhi-me às prateleiras, tentando disfarçar a desordem sob a pilha perfeita de dias de igual diâmetro. Coloquei-me no fundo da pilha, adiando. Cansada dos experimentos. Das experiências também...Desde quando me quebrei pela última vez, esqueci a sabedoria da pele: trago o vidro trincado, sem registro de regenerar. Sempre que entro em contato, desentendo organicamente: os dedos contraem-se de dor contra as bordas ríspidas do não."


 
 
 
Pelas mãos da estrela Roberta Mendes do http://www.palavraemfuga.com/
Os vôos metafóricos desta moça, são de engarrafar aviões.
 
 
 
 
Esta tarde, divido este céu com duas estrelas. De uma, estou aguardando  permissão. Da outra, sequestrei o poema sem que ela visse. Achei que não teria nenhum mal, já que lá as palavras vivem em fuga. Nada como hospedar celebridades. Nossos olhos não só agradecem, como também se enchem.


Então, Roberta, querida.
A Pipa é ladra de poesias. Mas tem bom coração. rs.





Um abraço conquistador.

19 comentários:

Juliana. disse...

Que lindas palavras minha amiga, bele escolha, a Roberta sabe o que diz..e como é bom observar as coisas, dialogar com o tempo, ver estrelas a brilhar no horizonte da noite! Perfeito!
Um beijo da Ju

Asas que ultrapassam os domínios do Sol disse...

Oi Pipa,
só posso concordar com a Juliana, esta realmente é uma linda escolha! Toucou-me fundo o momento em que trata sobre os acasos e OCASOS da vida: "a vida sempre acontece quando estamos distraídos". Achei divertido perceber, como não podemos prever o que realmente pode estar no por vir. Certa ves escutei alguém me dizer: "enquanto fazemos planos, Deus ri".. Acredito que só ele sabe mais sobre os caminhos possíveis da nossa vida.
Te abraço

WILSON disse...

Todo mundo é parecido quando sente dor, já dizia Barão.


Não se alimentem de ilusões meninas, porque estes idiotas não vão se casar com vocês nem que acabem ficando cegos, surdos, e mudos.


Agora beijem o padre. rs.



Belíssima urdidura de palavras. Espero que eles levem tudo, menos esta capacidade estrondosa de carregar na carruagem as paisagens da memória.

WILSON disse...

Pipa, agora diga-me?

Amigos? rsrsrsrsr

Pipa. Agora eu era o herói. disse...

Wiiiiilsoooooooooooon... Ficou parecido com o náufrago? Ou faltou um pouco de ênfase no i? rs

Amigos?


Até que este tiro de fuzil nos separe.


A sua sorte é que cortei todos os dedos da mão direita num triturador de gelo. Ou te faria sentir agora o peso da minha caneta tinteira, só pra você aprender a lição e cultivar de uma vez por todas o temor de Deus. Tire já esta bata de celibatário de cerimonialista de época e pare com estes sermões da missa do galo. A propósito o Natal está chegando, espero que consiga aquele bico para montar as figurinhas do presépio. Para redimir seus pecados, não seria de todo mal. Tenho fé que um dia seus pensamentos consigam sair da categoria das porcarias.

Oh céus! Comentários como esses deviam ser crime previsto no código penal.


Roberta, querida, não ligue para o que ele diz. É só um oportunista pleiteando um cargo de amigo pessoal. rs.

Roberta Mendes disse...

Ao morder a isca, vê-se o peixe catapultado do mergulho ao voo. Prateiam-lhe as escamas contra o céu: pingente. Pouco importa faltar-lhe o ar, se será inviável esta aventura em novo habitat, como é destino de todo peixe fora d'água. Sonha que é pássaro e se arremessa. Sonha que é Pipa e solta grandes bolhas de sabão, com a boca redonda de espanto.

Obrigada. Obrigada. Obrigada. Digo em eco de dentro do ventre ainda oco. Tuas palavras em mim. Minhas palavras em ti. Coisas nascidas.

Pipa. Agora eu era o herói. disse...

Oh peixe de escamas prateadas, nade comigo e estrearemos versos inéditos na nova fase de "As Heroínas Mergulhadoras" Eu nado contra a corrente dos ventos
E você contra a corrente das marés. E juntas vamos tecer um manual com o título "As Grandes Esperanças do Porvir". Ou se achar mais apropriado, poderemos fazer como eles e arriscar uma obra mais ambiciosa tecendo noções preliminares do tipo "OS PODERES DA INÉRCIA." Aprenderemos sobre a arte de ficar invisível, ou totalmente na nossa e quando eles procurarem por nós, advinhe?

Já teremos desaparecido. rs.


O prazer é todo meu querida.
Todo meu. Seja bem vinda raio de sol entrando em minha vida. Eu sempre soube que isso ia acontecer.



Te abraço com amor.

::::FER:::: disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
::::FER:::: disse...

gente nossa viajei no texto, nos comentários, me senti uma formiga, foi bom sentir-me formiga aqui nem me importei quão grande foi o grão de açucar...


sempre que penso em tocar num assunto percebo estar em palta em todos blogs que sigo... hj escrevi sobre criança, memória e filho... mas ainda não postei...

Denise disse...

Se for para "roubar" que sejam sentimentos poesias.

Fez muito bem!
e tenho dito.

carinho

LUZIA disse...

"Nunca aprendi a lição: a vida sempre acontece quando estamos distraídos."

Lindo!!

Pipa querida, espero que não se importe, mas também andei sequestrando sua poesia, rss.

Um grande abraço.

Roberta Mendes disse...

Você sabe tanto de mim que adivinhou até meu super-poder favorito: a invisibilidade :-) Por isso, ando sem óculos, com quase 3 graus de miopia em cada olho, acreditando que, se não vejo, também não me vêem a mim ;-) Que tal brincarmos pra sempre de super-gêmeas? E a ordem nunca ser de desativar? Essa nova forma de encontrar irmãos: pelo DNA das palavras!

Pipa. Agora eu era o herói. disse...

Mas é claro - respondi.


Vamos mapear os genes e referenciá-los posicionalmente de modo a afastar cada enfado e ausência de nossos olhares. Deixaremos nos levar por esses arranjos parentais de palavras e percorreremos a linha milagrosa da liberdade, com a infinita paciência dos que aprendem preces ou condenações. Sabe qual é parte boa desses infinitos grupos de ligações? É que apesar de serem facilmente individualizáveis, não se desintegram. E o que é melhor. Se entendem completamente.



SUPER GÊMEA? está armada? Você leva a água benta. E a Pipa o pó de pirlimpimpim.

Não precisa acreditar que funcione. É só por imperativo biológico. rs


Vamos ao grito de guerra!!!

SUPER GÊMEAS UNIDAS JAMAIS SERÃO:

a) nocivas?
b) reprimidas?
c) vencidas?

Esqueça! O importante é que a revolução prossiga!

Fé Fraga disse...

Pipa minha lindeza,
Amei o texto. Chorei com esse trecho juro:

"Sempre que entro em contato, desentendo organicamente: os dedos contraem-se de dor contra as bordas ríspidas do não."
Bravo!
Bela escolha de Roberta. Ela não vai ficar bravinha, rs..~

Um beijo,
Fé Fraga.

http://mefaltaumpedacoteu.blogspot.com

Palavras Eternizadas em pingos de Luz! disse...

Fabuloso o seu espaçooooo...
Seguindoooo...


Rafah
http://eternizadoempalavras.blogspot.com

onzepalavras.com disse...

Ver a Betinha assim em outras paragens enche meu coração de alegria. Ela, que sempre foi do mundo. Ela que sempre foi estrangeira em toda terra. Ela, que eu reconheci irmã lá no estrangeiro. Ela que me fisgou pela palavra sertão. Ela que é um ser-tão generoso. Ela que é um pedaço do meu coração.

Obrigada Pipa. Por alegrar esse meu pedaço de vida mais vivo do que tudo.

Leo disse...

"A vida sempre acontece quando estamos distraídos"

será que há mais vida nas distrações?

Hoje eu quero prestar atenção, pra depois, distrair-se mais.

eu quero viver a minha vida entre as estrelas, elas não sentem dor, só aquecem.

Beijo doce, Pipa querida.

Cristiano Guerra disse...

A vida não podia nos ensinar assim a ser tão espontâneos? Eu queria aprender a ser surpreendente, mas livros acadêmicos e livros de poesia não possuem capítulos sobre o porquê de muita coisa. Eu sempre gostei do experimênto o feijão, mas o das tintas sempre foi fabuloso. Aquele de misturar as cores? Azul com amarelo dá roxo. Verde com amarelo dá azul. Eu sempre me empolguei tanto, que sempre ficou preto, tudo preto, sempre preto. Jamais encontrei o branco.

Abraço, com a cor que você quiser.

Mariana disse...
Este comentário foi removido pelo autor.