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8.29.2010

Festival de Horrores








Arte: © Agócs Írisz





"Dá minha jaqueta, boy, que faz um puta frio lá fora,

e quando chega essa hora da noite

eu me desencanto."


aquele, o Caio F.





A  noite caiu como um grito num acesso de pânico. Os ventos nunca sopraram tão fortes como naquela tarde. As nuvens se espalharam rapidamente pelos céus da cidade, descarregando uma tempestade de besouros-bombardeio com semblante corcomido de inquietação, que empurravam o sol com as duas patas dianteiras, com a ambição de apagar o mundo. Tentei juntá-los com as mãos, mas eles fugiam expelindo uma fumaça embaçada, destilando faíscas de fogo e incinerando tudo o que encontravam pelo caminho. Por entre as volutas da fumaça, vi um homem sem rosto, carregando um coração ensaguentado nas mãos. Não existem razões para dizer a verdade quando se pode mentir com infinita destreza. Mas isso é pura especulação. Junto dele, havia uma mulher que parecia fugida de um bordel gótico, carregando a incrição de "dama louca", em quem pensei reconhecer um arranjo floral de camélias, pelo cheiro caudaloso de pecado que exalava de seus poros. Embora circulassem livremente entre os vivos, eles estavam mortos. Capturei os ectoplasmas. Pela fachada dos olhos, vi um festival de horrores que me remeteu ao mausoléu de Halicarnasso, colocando estercos de mágoa na tumba para viajar por debaixo da terra na tentativa de não perder o triunfo estético. À minha vista, se ergueu um gigantesco cemitério de múmias de animais, cujas almas apodrecidas viviam sob os cascos de troncos velhos, cultivados por uma mão marrom quase preta, que escavava buracos debaixo da terra para hospedar os ovos da compaixão nas raízes do carvalho. No caminho de volta, fui informada sobre os antecedentes da derrocada emocional, cuja única função  do rei foi a de tentar me convencer, do quanto ele e sua rainha foram ricos, antes de escaparem da alta posição. Fiquei com o silêncio no colo, segurando a palavra nas mãos. Senti-me  um bicho exótico de contrabando sem um plano de defesa para sufocar a rebelião. Tive um surto de náuseas. Foi a primeira vez que me elegeram a pivô para encenar uma provocação. Receba minha gratidão. Este foi um elogio que nunca me fizeram.





P.S.: Texto dedicado as sensações captadas da menina Zíris, que perdeu a fé. Em que? Em tudo. Passa neste instante por um dos momentos mais difícíeis de sua vida. E o cenário é de completa devastação. Era uma criança sonho cuja alma morava nas palavras, até os ventos as varrem de seus lábios. Já não tem mais vontade de escrever poemas. Vocês devem ter notado esta mudança em meu blog, mas gostaria de dizer que os três últimos textos foram influenciados por comentários de pessoas, que me pediram para explorar algumas frustrações. Espero que termine logo este ciclo seco menina Zíris. Gostaria de pedir aos bons corações que vivem agora em momentos mais limpos que ajudem nossa poetisa a fazer a passagem de acesso a claridade,  para que avancemos felizes para esta festa de luzes que nos espera no céu.


Visitem-na aqui:


http://ziris-umtoquedevida.blogspot.com/



Te abraço com amor, querida.


Um beijo de sol.

21 comentários:

Franck disse...

A sua náusea sartreana, que ela venha em textos tão belos como este...
Bjs*

Fé Fraga disse...

'Foi a primeira vez que me fizeram de pivô para uma provocação. Receba minha gratidão. Este foi um elogio que nunca me fizeram"

Tudo passa!

Beijos,
Fé Fraga
http://mefaltaumpedacoteu.blogspot.com/

Mulher Vã disse...

Texto vomitado sobre o teclado com uma destreza incomum de quem ta enfrentando uma bela, sofrida e pungente ressaca. Pena que uma viagem caleidoscopica como essa, só dura enquanto retem os efeitos alicinogenos do cogumelo suculento ingerido por V. Senhoria.

Uma viagem e tanto, eu diria!

Adorei sem dúvida! =))


Beijo, beijo, beijo


Mulher Vã disse...

Voltei pra dizer que senti falta de uma citação de abertura do post!!

z i r i s disse...

Foi a primeira vez que me fizeram de pivô para uma provocação.


Foi a primeira vez que me fizeram de pivô para uma provocação.


Foi a primeira vez que me fizeram de pivô para uma provocação.


Perdi a fé. Em que? Em tudo.

Mulher Vã disse...

O Caio ta atrasado dessa vez! =PP


Beijo

Fernanda Deunizio disse...

Encontre a fé Pipa. Tudo passa. E você leva essa fé pra muitas pessoas. Envio cores pra você.

Um beijo.

Sempre por aqui, F.

Alvaro Vianna disse...

Fico a me perguntar como uma doce Pipa pode ser pivô de uma tragédia de cenário assim dantesco.
"Elogio" me faz imaginar que a pensaram derrubadeira de imponentes torres, já que conhece atalhos celestes.
O que injusto faz perder a fé. Mas em tudo?

Um beijo assustado.

Carol Fonseca disse...

perdeu a fé?
então bem vinda ao clube,baby!

Vozes de Minha Alma disse...

Vamos sim Pipa!
Tudo passa...
Mas deixo um abraço, do teu leitor, boa semana.

H. Machado disse...

Watch out for the demons runnin' around your soul, piece of love.

WILSON disse...

Não faz sentido.

Você me mostrou esse texto ontem, olhou pro corpo estendido no chão e cuspiu na cara do morto.


Ei, porque vive matando alguém que já sabe que não vai poder enterrar?
rs...

Dá dando murro na ponta da faca desde o início Lídia.

Pipa. Agora eu era o herói. disse...

É aí que você se engana Wilson.


É agora que os murros vão começar!


rs...



Só tem duas causas que não perco Wilson:

A do coração
E a do bolso. rs...

Ju Fuzetto disse...

A fé virá de um beco qualquer, trazida na chuva de palavras doces...

Um beijo do tamanho do mundo Linda Pipa!!!

Leo disse...

Ei Pipa,

Adivinha o que tenho aqui???
trouxe um carrinho de mão cheio
de terra e uma pá, vamos enterrar
todos os mortos!

Cuidas de mim. cuido de ti.

Arthur disse...

Nada acabou ainda. Não estamos mortos. Levamos tudo com a gente, querendo ou não. Seguremos as palavras.

Mulher Vã disse...

Cade o duelo?

Pipa. Agora eu era o herói. disse...

Está no texto "Dos impulsos"

O Álvaro o publicou no Quase definitivo, acho que ele quer atear fogo no inferno.

rs...

Beijo!

Isadora disse...

Minha amiga, muitas vezes as dificuldades ou tristezas, nos fazem perder a fé. Podemos perder a fé em tudo, menos em nós mesmos. Nós somos nosso castelo, nossa fortaleza, nossa espada e nosso escudo. Corpo e alma lutando lado a lado farão com que o caminho de luz chegue.
Um beijo e fique bem

dansesurlamerde disse...

ao menos as camélias passam por teu texto e pelo meu.
de resto, é a insegurança que ronda.

beijo, bonita.

Gislãne disse...

Perdeu a fé? Será que dá para encontr-lá? ;)