5.23.2010

É o preço pela mancha









"A maior ambição, é tentar ser ninguém."


Fabrício Carpinejar





Fiquei em dúvida se a moral é uma característica negociável ou um tempero do caráter. Por que será que as críticas mais violentas do ponto de vista moral advém de pessoas que se quer mostram a cara? E nem vão mostrar. Não vão mostrar, porque se vestem com palavras destrutivas, tomam as roupas emprestadas da ignorância, sem perguntar ao bom senso se lhe agrada. E pelo visto lhes caem como luva. Imagine o desconforto que seria dar de cara com o seu dono neste festival de convicções? É fácil matar alguém, o difícil é colocar debaixo da terra.  Encontrei muita sobriedade em Fabrício Carpinejar na tarde de ontem, quando tive acesso à publicação “Longe de um Lar”. Me levou a uma reflexão de nascer cabelos brancos. Me arrisco a dizer o que pensei sobre a colocação “O amor é empobrecer junto se for o caso.” Não há que se aguardar um momento certo, simplesmente porque é algo que se constrói com as moedas do dia. No agora. E para isso, às vezes necessitamos de nos relegar a uma posição de mendicância. Se você espera que uma relação dê certo, é preciso aprender a ceder e a aceitar. Se a gente enfrenta desentendimentos dentro da própria casa com os pais, imagine com um estranho que acaba de chegar? É um alienígena. Mencione a palavra compartilhar com uma pessoa egoísta? Vai perder a proposta. Se as relações são jogos de risco, as apostas continuam a aumentar. Não se consegue manter um placar se o dinheiro não estiver envolvido. Não vejo problema em se ter dinheiro, desde que gaste seu tempo a ganhá-lo ou gastá-lo com alguma coisa que realmente valha à pena dedicar a vida. Há coisas que tem mais formas que fundo. E o dinheiro está entre elas.  Lamentavelmente, estamos tão preocupados com a mancha das vaidades, que alguns usam soda cáustica fabricada no fundo do quintal, para limpá-las. Críticas destrutivas, pode ser o preço dela. Não adianta, ela não vai sair. Porque mais cedo ou mais tarde, a caneta vai estourar nas mãos do maior juiz da humanidade: a consciência. E essa mancha, não há ácido que limpe. Como bem asseverado em seu Consultório Poético, concluiu Carpinejar em outro tema: “Deixam no piloto automático e culpam o poste pelo acidente.” É mais ou menos o que acontece quando desconectamos o fio interno que nos liga às pessoas que nos cercam, para correr atrás desse “sedutor” que é o Dinheiro. A consequência natural é o desapego. Gastamos tanto tempo pilotando a nave do futuro, que esquecemos do presente. Ele está offline, nos mandando mensagens o tempo todo, implorando para ser aceito. Colocamos um cordão de isolamento entre as pessoas. Ele é invisível, por isso poucos o enxergam. É como vendar os olhos de uma foto em um porta-retratos, com medo de que ela veja o que estamos fazendo. É uma ilusão enganar a si mesmo. Não raras vezes menti para mim. E algumas vezes fui tão convincente que acreditei. Como poderemos ver o outro a partir dele mesmo, se não há outra imagem no espelho da vida, que não a nossa? As aparências enganam. Perdi com isso. Mas aprendi também.  Longe de levantar polêmicas de diferenças culturais ou estabelecer condições sócio-econômicas para que o amor floresça. Ainda me filio à tese de que o segredo da vida está no equilíbrio entre a razão e a emoção. Que pode ser enfrentado como um apelo afetivo para os românticos. Ou um soco na cara para os céticos. É preciso estar muito alto na cadeia moral para enxergar ternura. É na dificuldade que se mede a temperatura do companheirismo.  Ele está coberto de razão. Abaixo o pseudo-moralismo? Não foi esse o pano de fundo!  Ninguém seria hipócrita o bastante em não admitir a importância do dinheiro para a sobrevivência de cada um de nós. Mas que a maratona pela vitória, não soterre valores que ele não compra.




P.S.: Se eu entendi bem, foi isso.


Lídia Martins



Ilustração do artista Raymond Peynet

10 comentários:

Bia Rodrigues disse...

Olá,gosto muito do seu blog,sempre que posso ,dou uma passadinha por aqui.Deixei um selinho pra vc lá no meu.Beijosssss

Alvaro Vianna disse...

"...empobrecer junto, se for o caso". Uma vez sonhei com algo assim. Só que depois que acordei, não consegui dormir mais.
Texto comovente.

Um beijo.

Leo disse...

Realmente é comovente. o dinheiro, os bens, são visto com mais valor do que nós. só dão importância, se temos isso ou aquilo. não entendo, deixam os valores, os principios, por simples moeda cinza.

Escreveste lindamente.
me lembrou um texto de Exupéry. vou por o link caso queira ver.

http://umolharsonhador.blogspot.com/2010/03/esta-moral-que-mermoz-e-tantos-outros.html

Mil beijos e 5 sonhos!

Sara disse...

são poucos os que se lançam de verdade ao amor, é possível sim ser feliz e empobrecer junto, não é ilusão, nem é coisa fácil, dói perder seja lá o que for de material, mas perder alguém é pior ainda...pessoas valem mais que dinheiro, embora o mundo tente me convencer do contrário...detalhe: nem todas as pessoas tem esse valor todo, mas quando nos encontramos com esse alguém entendemod bem o que significa: "o importante não é o que temos na vida, mas sim quem temos na vida"...beijinhos PIPA

Julia disse...

Seu blog é maravilhoso, seus textos... Tudo!! Fico feliz em te seguir!! Um beijo, tenha uma ótima semana!!

Leni disse...

Adorei seu texto. E quantas verdades falas! É triste....
beijos

Nathy disse...

Confesso não ter lido tudo por aqui. Mas seu blog é muito belo, suave...e vc escreve muito bem! Parabéns. Gsoatei muito. Beijos.

Serena-Cris disse...

Lágrimas rolaram aqui ... ocê é de uma pureza, muié! Sinto tuas luzes, sinto tuas cores ... tua alma vibra!

PS: Quando eu crescer, quero ser igual ocê!

*

Ziris disse...

Querida Lídia... (hoje é Lídia, toda crescida de altura)

Bom, acho que sabe bem a admiração que tenho pela sua perspicácia na escrita. Desta vez você passou dos limites rs. Texto claro como o céu. Limpo como tua alma. Preciso dizer que criei algumas urticárias nas pontas dos dedos, pela imensa vontade de postar alguns trechos que abrangem todo um cacho de situações de vida, que não só o na questão enfatizada. Foi grande! Foi imenso!

Destaco estes:

Fiquei em dúvida se a moral é uma característica negociável ou um tempero do caráter. Por que será que as críticas mais violentas do ponto de vista moral advém de pessoas que se quer mostram a cara? E nem vão mostrar. Não vão mostrar, porque se vestem com palavras destrutivas, tomam as roupas emprestadas da ignorância, sem perguntar ao bom senso se lhe agrada. E pelo visto lhes caem como luva.

Como poderemos ver o outro a partir dele mesmo, se não há outra imagem no espelho da vida, que não a nossa?

É preciso estar muito alto na cadeia moral para enxergar ternura. É na dificuldade que se mede a temperatura do companheirismo.

São estes que me causaram a tal urticária. Eles são de muita sabedoria de vida. Me senti defendida perante a frieza e desleixo como coisas tão belas são tratadas por alguns ainda...

No fim a vida é mais. Sempre mais do que se vê. Este seu texto não deixa margens de dúvidas quanto a isso. Que fase bela que estás atravessando. Sinto-me feliz em tê-la por perto!

Abraço de koala!

Leandro Lima disse...

Só discordo de um pedaço:
"Se a gente enfrenta desentendimentos dentro da própria casa com os pais, imagine com um estranho que acaba de chegar?"
Tento justamento o contrário: mostrar para os de fora o que não tenho em casa. O entendimento tem que vir alguma hora, oras!

=)