11.17.2009

Não solta das minhas mãos

Passei agora ao cair da noite pela casa em que a Serena Cris se trancou por uns dias. Aquela. Do isolamento. As portas estavam fechadas. Soube que ela tinha se machucado outra vez. Que tinha caído um tombo de bicicleta. E se entortou toda. Dessa vez ela perdeu os sapatos. Bati sem parar. Mas ninguém abria. Sorvi o ar. Ele estava comprimido. Do quarto vinha um gemido revelador. Esparramadas pelo chão algumas fotografias do ordinário que tem fome de olhar. Recortadas justamente nos olhos. Não sei o que ela estava tentando. Mas acho que ela não queria que ele olhasse mais pra ela. Procurei pela Zenilda. A galinha de meias listradas. Soube que ela também tinha saído na tempestade pra procurar a fada Pipa. Acharam que ela tinha sumido. Mas ela é assim mesmo. Quando menos se espera ela aparece do nada. Assim que soube. A fada Pipa mudou de roupa e pegou carona na cauda de um cometa. Riscou a Via Láctea e se embaraçou numa constelação. Depois ficou presa num engarrafamento de nuvens nebulosas. Desceu com o sol. A lua ficou enciumada e deu-lhe um empurrão tão forte que ela veio parar na terra. Enfim caiu pela lareira. De sorte que ela estava em desuso. Ergueu-se e caiu de novo por causa da barra da saia que ficou presa num tijolo. Mas dessa vez planou até o sofá. Era uma fada desajeitada. Sacudiu a poeira lunar. E ajeitou os óculos de grau passado. E se juntou a Serena Cris em seguida. Acendeu um candelabro com velas brancas. Seu corpo estava desmanchando em febre por causa de um pesadelo grosseiro. Mas era só um pesadelo. Estacou os olhos sob sua condição. Colocou o chapéu sobre o peito. Sentou-se ao seu lado e lhe disse baixinho: Aconteça o que acontecer: “Não solta das minhas mãos.” Ela acordou sensitiva. Abriu os olhos devagar. Num contentamento de quem sabia que não estava sozinha. Um rubor coloriu-lhe a alma. Torrentes de luz inundaram o quarto. No rosto, um sorriso iluminado. Não sendo mais, que raios de sol...
Pipa. Deixa o sol entrar.

4 comentários:

Anônimo disse...

Lindo como vc Pipa.

Parabéns


Bjo

Tiago

Noemyr disse...

Muito lindo!!
Todo mundo tem uma fada dessas =)
Tá do seu lado, do meu...
Besitos :*

Cris disse...

.

Chorei. Chorei muito. Era o que tava me faltando. Lavar a alma com sabão grosseiro.E lavei. Pra ver se saia todo o encardido da alma. Mas foi com mel e açucar que as feridas fecharam. Hoje eu as toco sem dor.

Besos, luz do dia

.

Anônimo disse...

Lindo e bem humorado como você!


Bjo

Lindomar