10.19.2009

A que sonha.





Debaixo de uns trapos coloridos, e pés descalços, e muito sujos pra variar, lá se foi ela no seu carrinho de rolemã, descer a travessia do eixão pra catar uns brinquedos, coisa muito escassa naquele tempo. Na verdade, ela tinha uma missão a cumprir naquela tarde de março. Encontrar uma perna pra pipa, sua única boneca. Passava das três, e como de costume, tinha chovido arco-íris naquelas bandas. Todo mundo dizia que num era pra ir pra lá não, porque lá era feio e tinha o perigo do cachorro do dono. Não havia portões e nem grades, tinha bem uma cerca de paus, enrolada com arame farpado, mas tudo isso era margeado por um riozinho, que era pra encantar o caminho. Passava o tempo fazendo armadilhas de como iria entrar lá pra pegar a perna da boneca que faltava. Então ela se aventurou na busca pra salvar a pipa da tristeza de ter uma perna só. E entrou de fininho...diz ela que tinha bebido chá de estrela, que a fazia ficar invisível durante o dia...Olhando maravilhada para aqueles tantos mundos esquecidos, ela finalmente encontrou o que procurava. Mas o guardião dos portões da fantástica fábrica dos mundos esquecidos se assustou com o barulho da alegria daquela criança, e tratou de soltar os cachorros em cima dela. Foi um pega ladrão daqueles hollyoodianos. Eram dois. Eram pretos. E os dentes mais pretos ainda. Eu também nunca vi cachorro de dente preto, mas foi a cor que ela enxergou naquela hora. Mais que depressa ela se dispôs a correr até que achou uma árvore e subiu lá em cima. E lá ficou por uma hora, imóvel. Depois, ela se rendeu e conversou com os cachorros. Chamou eles num canto e disse assim oh: - OÓia vô falar uma coisa proceis dois, eu vô descê, mai a perna da pipa eu num entrego não. Foi quando eles pararam de latir, e começaram a chorar.


E ela, ainda canta.



Pipa.

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